A questão que tem sido levantada é se o cristianismo é uma religião para mulheres mas não para homens. Alguns têm alegado que as virtudes que inculca são femininas, em vez de masculinas; que não faz apelo aos instintos e aos sentimentos masculinos, como faz aos da mulher; que os seus princípios e qualidades não são aqueles que se reconhecem entre os homens como pertencentes à mais verdadeira e mais resistente masculinidade. Há, pelo menos, uma impressão generalizada de que, na experiência real, o cristianismo não está a fazer dos homens o melhor possível. Isso é o que o mundo cobra. Diz que os homens do cristianismo estão desprovidos de qualidades, que são sentimentais e fracos - e nem sempre verdadeiros, nem sempre retos, sem força viril. 

Não há dúvida de que existem em Jesus todas as qualidades mais suaves que pensamos pertencer à mulher. Mas não são estas mesmas graças, adornos também de caráter viril? É uma vergonha para um homem ser bondoso, terno, paciente, simpático? No entanto, embora essas qualidades mais suaves, sem dúvida, apareçam no carácter de Jesus, não há Nele menos elementos de força, coragem, heroísmo, justiça, integridade inabalável. Ambas são precisas para tornar a masculinidade completa.

  1. W. Robertson diz que o coração de Cristo tinha as qualidades misturadas de ambos os sexos. "Há nele, diz "o coração da mulher - assim como o cérebro do homem". Há algo muito bonito neste pensamento, de que em Jesus se encontra o que é melhor e mais verdadeiro no homem e na mulher. Uma mulher que procura tudo o que é puro, tudo o que é adorável na feminilidade, as graças do caráter refinado: delicadeza, doçura, amor - encontra todas essas qualidades em Jesus Cristo. Por outro lado, um homem que esteja à procura de tudo o que é justo, tudo o que é honrado, os elementos de nobre masculinidade, também encontrará essas qualidades em Cristo. Nele, todas as excelências da masculinidade, conforme planeado por Deus, encontram a sua perfeição.

Como Robertson diz: "Uma vez na história deste mundo nasceu um Homem. Uma vez no fluir dos tempos, num mundo de inúmeras falhas, do stock da natureza humana, desenvolver-se um botão numa flor impecável. Um espécime perfeito da humanidade que Deus exibiu na terra." Outros homens, os melhores, os mais verdadeiros, os mais dignos, têm neles apenas um pequeno fragmento de uma vida completa; mas em Cristo é a humanidade perfeita, como se o que fosse melhor e mais verdadeiro em cada homem, e o que fosse mais delicado, mais suave e mais puro em cada mulher - estivessem no Seu carácter.

Quais são as qualidades masculinas? Thomas Hughes diz que a coragem é o fundamento de toda verdadeira masculinidade. Ele não se refere à mera coragem física, que se pode ter e ainda ser uma cobardia moral - mas aquela coragem que adere ao que é certo - calmamente, firmemente, diante de todo o perigo e de todo antagonismo, e segue direto, com inabalável persistência, em direcção ao seu objetivo. Encontramos coragem em Jesus? Lembre-se do significado da Sua missão. Ele veio ao mundo para destruir as obras do diabo. Ele foi o segundo Adão, de pé, pronto para a corrida. O primeiro Adão falhou e caiu. Conhecemos as consequências da ruína e da tristeza, numa dimensão limitada.

Agora Jesus veio para a batalha, para recuperar o que tinha sido perdido. Os interesses de toda a raça humana estavam nas Suas mãos naquele dia, quando os céus se abriram e o Espírito desceu sobre Ele.

Imaginemos que Ele falhava… Mas não falhou. Enfrentou um terrível antagonismo. Após o Seu batismo foi para o deserto, onde suportou assaltos terríveis de Satanás. Suponhamos que Ele falhava nessa altura… Qual teria sido a consequência? Mas Ele enfrentou o tentador numa batalha feroz, e permaneceu firme como uma rocha. Assim foi ao longo de toda a Sua vida. Ele nunca hesitou no Seu propósito de ser verdadeiro. No Seu ano de maior popularidade, esse foi o teste mais doloroso à sua coragem moral, mais do que a oposição. Muitos homens cedem às seduções da lisonja e do favor - e não são verdadeiros. Outros na tempestade da inimizade - são tão fiéis como uma bússola. Mas Jesus não foi influenciado pela popularidade, e nunca se desviou do caminho certo.

Então veio a oposição. As multidões começaram a abandoná-Lo. Os governantes ficaram contra Ele. Os inimigos juntaram-se em número cada vez maior. O fim estava a aproximar-se, e Ele sabia qual seria esse fim. A sombra da cruz caiu sobre a Sua alma naquele dia em que Ele foi baptizado. Cada passo da Sua vida acontecia em direcção ao Calvário. No entanto, à medida que a conspiração contra si se avolumava, à medida que as sombras se aprofundavam, Ele não vacilava. Determinou-se firmemente em ir para Jerusalém, embora soubesse o que O esperava. Nunca antes, nem desde então, o mundo viu qualquer outro acto de coragem como foi o de Cristo. Ele ficou firme pela nossa salvação, e não vacilou na prova. “Dizendo: É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas e seja rejeitado dos anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia.” (Lucas 9:22)

Louvamos o heroísmo do soldado que permanece firme, em risco de morte, em defesa do seu país. Louvamos os heróis em todos os lugares de perigo de vida que são fiéis à confiança que em si foi depositada. Isso é bom. Mas o heroísmo mais elevado de todos os tempos foi o de Jesus.

A força é outra qualidade de virilidade. É bom ser fisicamente forte. Mas um homem pode ser um Hércules no corpo e um pigmeu em força moral. Sansão conseguia levar os portões da cidade - mas não foi capaz de suportar as tentações da ociosidade e da luxúria. A força de muitos homens é manchada pela fraqueza de algum tipo. Diz-se: "Todo homem tem o seu ponto fraco". Contudo, será vão procurar na história de Jesus qualquer traição ou fraqueza. Vemos a Sua força majestosa, lado a lado, com a Sua coragem, nos Seus conflitos com o tentador, na Sua persistente devoção à vontade divina, na Sua irrepreensibilidade e sem pecado no meio de todas as seduções da vida. Em todo lugar que o vemos, Ele é real.

Vejamos o Seu autocontrole como um sinal da Sua força. O homem verdadeiramente forte é aquele que tem grandes capacidades, sentimentos, paixões, poderes e tem perfeito domínio sobre eles. Não importa quão grande um homem possa ser em aptidões ou na imensa energia que tenha na sua vida - se ele não for capaz de controlá-las, ele é lamentavelmente fraco! O homem verdadeiramente forte tem poderosas forças internas, uma alma de força, paixões intensas, sentimentos, temperamentos - e tudo sob perfeito controle. Jesus fez este teste. Nele, todas as forças humanas atingiram o seu mais alto desenvolvimento, e então Ele foi o perfeito mestre de Si mesmo. Ele nunca foi desviado pela oposição, pela injustiça, pela tortura a falar uma palavra irreflectida. Ele nunca perdeu a cabeça. Nunca ficou impaciente. Nunca falou imprudentemente. Nunca demonstrou inveja ou ressentimento. Nunca se preocupou, nunca se queixou, nunca se perturbou na calma da Sua alma por circunstâncias externas. Ficou em silêncio no barco, na tempestade da meia-noite. Enfrentou o homem violento entre as tumbas - como se fosse um bebé a dormir. Ele entrou e saiu entre os judeus hostis - tão calmamente como se eles fossem os seus amigos mais queridos.

Pense no seu autocontrole no sofrimento. Nunca ninguém sofreu uma dor tão profunda e terrível como foi a dor de Cristo no jardim e na cruz! Às vezes pensamos que as nossas dores são amargas - mas não são nada, comparadas com as que Jesus suportou! Temos indícios da carga quase insuportável do Seu coração, nos fortes gritos que vieram do Getsémani e na palavra de desamparo que rompe dos Seus lábios na cruz. Contudo, através de todos os Seus sofrimentos indescritíveis, Ele manteve a calma mais perfeita! Ele nunca murmurou. A Sua paz nunca se quebrou. É a força masculina, que suportou tão silenciosamente um sofrimento tão incompreensível!

Ou pense como Ele suportou, com paciência, o mal e a inimizade. Desde o início do Seu ministério público, Ele encontrou injustiça. Foi rejeitado por aqueles que Ele procurou ajudar. No fim, esses antagonismos tornaram-se mais amargos, mas Ele suportou-os com uma paciência heróica. Nunca demonstrou o menor medo. Nunca ficou irado. Lembre-se do modo paciente como enfrentou as Suas injustas provações e o Seu silêncio diante do conselho judaico, diante de Pilatos, diante de Herodes. Pense no Seu silêncio e na Sua submissão paciente quando coroado com espinhos, zombado, flagelado, cuspido! É preciso muito mais força para suportar indignidades e censuras quieta e docemente - do que ressentir-se delas, resistir a elas, levantar a voz e a mão contra elas, especialmente sendo alguém que tinha poder para resistir. Mas essa era a força que Jesus tinha. "Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:53)

Quando estavam prestes a ser crucificado, ofereceram-lhe uma poção estupefaciente, para amortecer a Sua consciência de dor. Era uma bondade oferecida por mulheres judias. Mas Ele silenciosamente recusou, e aceitou a plena medida de dor que a crucificação envolvia, com todos os sentidos bem presentes. Quando os pregos perfuraram a Sua carne, o único grito Dele foi uma oração pelos homens que o estavam a crucificar. Alguém pode ler a história de Jesus e notar a força presente em tudo e dizer que Ele não era um homem viril?

Outro elemento da masculinidade ideal é o verdadeiro amor, ou a generosidade. Podemos dar-lhe diferentes nomes. É de grande coragem. Um escritor diz assim: "Um temperamento sincero e gentil, que suporta falhas, que facilmente perdoa o mal, faz parte de qualquer noção comum de masculinidade". Há homens com muitos pontos fortes, que carecem dessa qualidade. Eles são suspeitos, ciumentos, invejosos, dissimulados, tacanhos, intolerantes. Sentem-se invejosos da prosperidade de outros homens. Não são generosos com as faltas de outros homens. São egoístas, exigentes, irrefletidos, ressentidos. São bruscos, severos, ásperos nas suas conversas. Estas são manchas na sua masculinidade. Mas aqueles que leem a história da vida de Jesus encontram Nele o melhor espírito de bondade e de generosidade. Ele era o mais verdadeiro cavalheiro que já viveu. Vimos a Sua coragem e a Sua força. Não menos maravilhoso era o lado gentil de Seu caráter. Ele era de coração grande, tolerante com os outros homens, paciente com as fraquezas dos homens, sincero em todas as Suas palavras e actos, cortês e gentil em todo o Seu falar.

Mesmo no Seu julgamento, Pilatos concluiu: "Não encontro nele culpa alguma." (João 18:38). Os mais próximos d’Ele observaram o máximo n’Ele para amar e admirar. Isso nem sempre é verdade em relação aos homens. Uma relação mais próxima com eles revela falhas e traços defeituosos. Uma relação mais íntima acaba, muitas vezes, com a apreciação. Muitas pessoas parecem melhores à distância do que quando estão por perto. Porém, a vida de Cristo resistiu à prova da familiaridade. Ele era gentil, pensativo, paciente, altruísta, cheio de simpatia. Ele amava os homens, não porque visse a beleza neles mas porque desejava fazer-lhes o bem. Ele tratava os homens sempre com um amor que estava pronto para fazer qualquer sacrifício para servi-los. O cristão, depois de olhar para Jesus de todos os pontos de vista, declara: "Sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalém!" (Cantares de Salomão 5:16)

A ideia do mundo sobre o que faz de alguém um homem nem sempre é infalivelmente verdadeira. Algumas pessoas chamam-lhe brutalidade viril. Em alguns países, "o código de honra", como é mais falsamente chamado, prevalece como um cânone do comportamento viril. Se um homem pensa que está a ser insultado, ele deve, de alguma forma, vingar-se do seu suposto insulto. Se não, eles chamam-lhe cobarde, e ele perde a posição social. Em alguns lugares, a verdadeira virtude de um homem é ridicularizada. Eles chamam-lhe pureza fraca, que não é de homem. Mas esses são padrões baixos e degradados. Nenhum homem que olhe para Deus e deseje crescer em beleza divina - chamará viril à brutalidade ou à vingança, ou à sensualidade, ou à desonestidade, ou à falsidade. O único padrão do caráter viril é o definido para nós na lei moral, uma transcrição do caráter do próprio Deus.

Jesus trouxe ao mundo um novo padrão de "masculinidade" - um padrão divino. Jesus mostrou ao mundo o que é que significa ser verdadeiramente um homem. Ele mostrou-nos um padrão no qual todos deveríamos procurar moldar as nossas vidas. Ele era um homem verdadeiro - desde a cabeça até à planta dos pés. A sua vida foi a mais verdadeira, a mais nobre, a mais forte, a mais valente, a mais desinteressada que jamais foi vivida na terra! Se procurarmos crescer na Sua semelhança, subiremos mais perto de Deus e entraremos no mais nobre e mais elevado alcance da humanidade!

No ensinamento de Jesus, também, encontramos os preceitos que estabelecem as qualidades da verdadeira masculinidade. Qualquer homem que sinta que o evangelho de Cristo não está apto a fazer homens valentes, homens fortes, homens verdadeiros - deve ler cuidadosamente o sermão do monte. Começa com as bem-aventuranças, nas quais o grande Mestre esboça alguns movimentos ousados ​​face à masculinidade ideal.

"Bem-aventurados os pobres de espírito." O mundo não escreveria essa beatitude. Contudo, quem dirá que a humildade verdadeira e inconsciente não é uma qualidade brilhante no caráter masculino?

"Bem-aventurados os mansos." Novamente o mundo zombaria. "É desprezível e cobarde suportar mágoas pacientemente, perdoar os erros, pagar o ódio com amor!" Mas a verdadeira mansidão é realmente viril. É mais fácil deixar que o ressentimento expluda, deixar a raiva queimar, dar o golpe da retaliação. Mas se a força é uma qualidade de masculinidade, é preciso força para ser manso. Se a generosidade é uma qualidade masculina, então a mansidão é viril.

"Bem-aventurados os puros de coração". O mundo não insiste na pureza, como elemento cardinal da sua masculinidade. Mas isso representa mais vergonha para o mundo. Quem se levantará perante os homens, à luz clara do dia, e afirmará que a impureza da vida não é viril e que a pureza do coração é uma qualidade radiante da verdadeira masculinidade?

Todos os ensinamentos de Cristo, se aceites e obedecidos, ajudarão à verdadeira masculinidade. Não há nada fraco ou não-humano em qualquer qualidade de caráter que Ele recomenda. Não há nenhuma virtude fácil como o mundo gosta. Não há elementos que não sejam puros, verdadeiros e certos. Um homem de coração falso não encontrará a sua masculinidade ideal em Cristo. O evangelho trata impiedosamente de todas as vergonhas, todas as coisas indignas da vida. Denuncia em palavras ardentes toda a inverdade. Jesus não foi condescendente com nada que não fosse certo e belo.

Conta-se a história de alguém que, lendo cuidadosamente os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus, onde tantos deveres estranhos à carne e ao sangue são ensinados, explodiu: "Jesus, ou este não é o Teu evangelho - ou Nós não somos cristãos! " A vida dos cristãos professos parecia-lhe muito abaixo do padrão do sermão do monte, de modo que ele sentia que não eles conseguiriam ser seguidores de Cristo.

Contudo, Cristo é mais do que um mestre. Um professor mostra-nos qualidades e realizações elevadas, e depois deixa-nos em fraqueza, sem esperança. Porém, Cristo é Ajudador, Amigo, Salvador, assim como Mestre. Ele mostra-nos o que é a verdadeira masculinidade - e então entra na nossa vida e inspira-nos a lutar pelas coisas que Ele recomenda, e então sopra a Sua vida em nós para nos ajudar a ser o que nos ensina a ser.

Não é fácil ser homem - um homem verdadeiro, nobre e semelhante a Cristo. Significa uma luta contínua, pois os inimigos da masculinidade surgem a cada passo; cada centímetro do caminho deve ser vencido na batalha. Significa constante contenção e repressão do pecado, pois o "velho" em nós deve ser subjugado e mantido sob controle, pelo novo homem que resolvemos ser. Significa disciplina constante e dolorosa pois os poderes da natureza são maus e indisciplinados, e difíceis de domar e controlar. Significa esforço incessante e abnegação, porque devemos seguir sempre para cima, e o caminho é íngreme e acidentado, e o EU deve ser dominado enquanto subimos para uma vida mais elevada. É difícil ser um homem verdadeiro, pois todas as probabilidades parecem ser contra nós, mas Cristo vive, e Ele é o Ajudador, Amigo e Guia para todo homem que verdadeiramente o recebe como Senhor e Mestre.

In Grace Gems – Usado com permissão

por J. R. Miller