Recentemente, li acerca de um homem chamado Yekutiel Yehuda Halberstam, um jovem Rabi que viveu na Roménia. A sua história tem tando de dramática quanto de corajosa e determinada. Halberstam era um indivíduo culto e bem-sucedido, capaz de atrair milhares de ouvintes que lotavam salas para escutar as suas palestras. Casado e pai de 11 filhos, a quem muito amava. Chegara longe na vida, mas isso foi somente o começo. Entretanto, a Segunda Guerra Mundial veio alterar profundamente o xadrez da vida deste homem. Foi nesta altura que o Rabi Helberstam perdeu a sua esposa e os 11 filhos, bem como a maioria dos seus alunos no “inferno” do Holocausto, tudo em que tinha investido tempo, afectos, saber, conhecimento, influência. Perante um cenário tão desolador, Halberstam podia ter vivido o resto da sua vida a lamentar-se, isolar-se de tudo e de todos, ficar num canto deprimido e amargurado. Apesar do infortúnio, ele ousou reconstruir. Restabeleceu comunidades Judaicas nos Estados Unidos e em Israel. De novo, granjeou amizades e centenas de seguidores. Casou pela segunda vez e foi pai de mais 7 crianças. Começar tudo de novo requereu dele uma enorme coragem e determinação, extremamente difícil e penoso seria viver na sombra da tragédia.

Ao ler esta história, muito semelhante no dramatismo à que viveu o personagem bíblico Jó, fiquei a pensar igualmente nos inúmeros comerciantes que perderam tudo ou quase tudo nas cheias que assolaram recentemente o Algarve, particularmente Albufeira. Anos de trabalho, investimento e dedicação que foram literalmente por água-abaixo, fruto de elementos não controláveis da natureza, que arrastaram os seus bens para a destruição. Aparentemente, tanto Helberstam como os comerciantes em Albufeira tinham ficado sem nada. Mas não, eles não perderam tudo. A sua força anímica estaria diminuída, certamente, a par da incerteza quanto ao futuro, mas a capacidade de escolher, se iriam reerguer-se do caos ou deixar de lutar, essa, mantinha-se intacta. Falando sobre o impacto da nossa atitude para com a vida, Charles Swindoll partilha connosco um pensamento: “Quanto mais eu vivo, mais me convenço de que a vida é constituída de duas partes: dez por cento dela é o que nos acontece, e os outros noventa por cento são constituídos por nossa reação ao que nos sucede.” E adianta: “Quando temos uma atitude certa, não existe barreira elevadas demais, nem vale por demais profundo, nem sonho exagerado, nem desafio insuperável.” Só assim se compreende que Nick Vujicic, o homem que nasceu sem braços e sem pernas, não seja um revoltado contra Deus, um indivíduo amargurado, antes um entusiasta, um motivador, cuja história de superação constitui uma extraordinária lição de vida. E, como esta, muitas outras histórias poderiam ser contadas.

O ano de 2016 está aí. O que nos reserva? Não sabemos, nem temos como saber, certo é que será um caminho nunca antes percorrido, em que muito daquilo que vier a acontecer, será, em certa medida, determinado pela atitude que tivermos, factor determinante para alcançar o sucesso. Será este o ano da reconstrução? Uma amizade de longa data que gostava de ver reabilitada? Uma relação familiar que se encontra muito deteriorada, a ponto de se desmoronar? Um senso de auto-estima a precisar de ser restaurada? Uma actividade empresarial em ruínas? A relação com Deus reatada? Seja o que for necessário fazer, mãos à obra. E aqui gostaria de vos apresentar um homem que encetou um processo de reconstrução notável, um trabalho de restauração dos muros destruídos e das portas queimadas da cidade de Jerusalém. Chama-se Neemias, era o copeiro do rei Artaxerxes, alguém em quem o monarca depositava grande confiança. Este homem estava comprometido com a restauração, em tirar o povo do estado deplorável em que se encontrava. Como iria motivá-los? Lançou-lhes um desafio: “… vinde, pois, e reedifiquemos o muro de Jerusalém e não estejamos mais em opróbrio.” (Neemias 2:17) Dito isto, e percebendo o povo como Deus tinha sido favorável com Neemias, responderam: “Levantemo-nos e edifiquemos. E esforçaram as suas mãos para o bem”. No sentido de reverter este estado de caos, era preciso: 1) Agir. Este era um tempo para entrar em acção, dispor-se a fazer o que o que fosse necessário; 2) Buscar a direcção de Deus. Na sua oração Neemias pede duas coisas: a) que Deus faça prosperar o seu caminho; b) que obtenha o favor de Artaxerxes (Neemias 1:11). Deus pode mover corações e vontades; 3) Preparar-se para oposição. Qualquer iniciativa que tomarmos será acompanhada por oposição. Sempre teremos alguém no processo a desencorajar-nos. Sambalate foi o rosto visível da oposição, aquele que liderou uma guerra psicológica enquanto eram reerguidos os muros (Neemias 4:1-3). Quando estivermos a ser pressionados a desistir, como é que vamos reagir? Note que o desencorajamento pode dever-se a causas internas e externas. Identifique-as. Neemias continuou a orar e o povo a trabalhar de todo o coração (Neemias 4:4-6). Aparte da oração e empenho, o que posso eu fazer mais? 4) Nunca deixe de acreditar. Prepare-se para ser assaltado por dúvidas, receios, pensando que nada será como dantes, sem o sabor de outros tempos. 5) Lembre-se, reconstruir é um processo. Requer ousadia, tempo, determinação e, acima de tudo, certifique-se que está a caminhar com Deus ao seu lado. Ele é a nossa força. Vamos lá reconstruir!

Abel Tomé