Olhou para o relógio e moveu a pequena seta até ao canto superior direito do écran. Era altura de sair daquele site. As imagens desapareceram, rapidamente. Desligou o computador e procurou assumir um ar descontraído. Foi à cozinha, à procura de alguma coisa para comer. Não que tivesse propriamente fome. Era mais a irritação do que a necessidade de ir ao frigorífico. Sentia-se inquieto.

Guardava em si o segredo há tempo. Tanto tempo… Quantas vezes dissera a si próprio que aquela seria a última vez. Mas lá voltava, como se fosse dependente, um escravo de imagens que se moviam em sedução. Não se conseguia controlar. A primeira vez acontecera após uma conversa entre amigos, um email que recebera… Já não se recordava bem, mas sabia que fora tudo muito rápido, até se tornar num hábito.

A chave rodou e a porta abriu-se, no ruído confuso e entusiasmado dos filhos que chegavam a casa. A esposa trazia consigo os sacos de algumas compras que fizera, que se apressou a tirar-lhe das mãos e levar para a cozinha. Os pequenos agarravam-no, ávidos da sua atenção. “Oh, pai, sabes, hoje lá na escola…” Beijou-os e centrou neles o olhar, procurando acompanhar cada detalhe das suas histórias.

Reparou no ar cansado da esposa. Iria ajudá-la a preparar o jantar, enquanto ela tratava do banho das crianças. Entregue à sua tarefa, o “segredo” não deixava de lhe aflorar à mente. O abraço da esposa fizera-o sentir-se mais desconcertado. Precisava tanto de falar a alguém na sua luta, tão marcada pela derrota. Mas, quem? Sentia-se embaraçado, envergonhado, desapontado consigo mesmo, quase infiel.

Esta história, de ficção, representa o dilema de muitos homens, hoje. Estão calculados em cerca de 4 milhões os sites de pornografia na Internet, número ainda e naturalmente ultrapassado pelo número de visitantes. Aí se situam milhares de pessoas em autênticos quadros de dependência.

A pornografia não foi feita para educar, foi feita para vender. Daí que não seja de esperar que contribua para (re)construir ou consolidar a vida sexual de alguém ou mesmo de um casal.

Jesus enfatizou o sentido libertador da verdade. Ora a noção libertadora sobre o sexo não pode ser apreendida através da pornografia, porque não lida com a verdade. Trata-se de um artifício, de uma representação. A pessoa é absorvida e estimulada por imagens construídas com sentido comercial, numa base meramente virtual. Promove a ideia de que sexo é algo que se pode ter em qualquer altura, em qualquer lugar, envolvendo quem quer que seja, sem consequências e sem qualquer preocupação com a sensibilidade e o bem-estar da pessoa por quem se é visualmente estimulado. O sexo é retirado do seu lugar devido – o espaço de intimidade entre duas pessoas que se amam – para uma posição que irá minando o próprio e a relação do casal. São, como alguém disse, horas perdidas numa fantasia.

Alguém dirá que se trata apenas de ver. Já que não existe toque nem perigo de contaminação, não influenciará tanto assim. Pensemos então nos doces crocantes designados Reeses Pieces, feitos de chocolate e de manteiga de amendoim, que surgiram no filme ET durante alguns segundos. Foi o suficiente para que as vendas disparassem para valores que, não se sabendo ao certo, poderão ter representado o triplo da procura do produto. E ainda é comum pensarmos que aquilo que vemos e que ouvimos não nos afecta. A verdade é esta: se apenas alguns segundos tiveram este efeito, que impacto terá na vida de qualquer pessoa aquilo que ela observa durante horas?

A energia erótica que deveria estar focada na pessoa que se ama, é desperdiçada na observação da pornografia, onde o corpo da mulher e o do homem são apresentados como uma mercadoria sexual, numa relação erotizada, desprovida do sentido de afecto e de compromisso. Esse cenário contribui para um empobrecimento da relação sexual real, roubando-lhe empenho, criatividade e possibilidades de a enriquecer. Daí que se associe muitas vezes à perda de sentido da relação conjugal, podendo vir a ditar-lhe o fim.

Rob Weiss, fundador do Sexual Recovery Institute em Los Angeles, refere que os indivíduos adictos à pornografia são comparáveis ao dependentes de drogas, sendo que aqui a droga é a sua própria bioquímica neurológica. Rob diz." É o que os excita. Eu falo com indivíduos que dizem que passam horas e horas e horas, e não estão cientes do decorrer do tempo, porque estão tão cheios de adrenalina, dopamina, serotonina". Por isso é comum que alguém, ao deixar de ver pornografia, apresente sintomas de privação desse “consumo”, tais como cefaleias, ansiedade e irritabilidade.

Kirk Franklin, cantor gospel mundialmente conhecido, admitiu, em 2006, num programa televisivo, a sua adição à pornografia. Ao reconhecer a compulsividade nessa prática, confessou que tinha um problema e que precisava de ajuda. Após anos em que se sentiu “como um hipócrita”, ainda que mais ninguém soubesse, o hábito desenhou nele uma auto-imagem contaminada. Hoje, afirma-se livre dessa adição e, com o seu testemunho, procura ajudar outros a sair de lá.

O Sexual Recovery Institute assegura que o primeiro passo para deixar a adição à pornografia é deixar de ver materiais pornográficos. Os filtros para material pornográfico poderão ser uma boa ajuda, tais como Net Nanny, CYBERsitter, NetDog and PureSight. Novas tecnologias têm emergido como recursos de ajuda para tratar este problema, como o  Porn Detection Stick.

É ainda fundamental tratar dos componentes psicológicos desse hábito. Alguns indivíduos confessam que foi uma tentativa de preencher um vazio nas suas vidas e de se alienarem de limitações e incapacidades pessoais face ao mundo exterior. Em terapia, os pacientes podem trabalhar intensos e antigos sentimentos de vergonha e humilhação e desenvolver as ferramentas para construir a verdadeira intimidade. Dependendo do dano causado na relação, poderá ser necessária uma terapia de casal.

Para alterar esta rotina de dependência, é indispensável quebrar o segredo, contar a alguém que lhe mereça confiança e saiba ajudar. Não contar constitui um factor de manutenção do hábito, conservando-lhe o “sabor” pois, como diz a Bíblia: ”As águas roubadas são doces, e o pão comido às ocultas é agradável.” (Prov. 9:17). Essa condição difícil precisa de ser partilhada e tratada numa relação de ajuda. Exigirá alguma coragem mas valerá a pena.

Por outro lado, da parte do cônjuge que é surpreendido pela notícia, saber gerir sentimentos penosos e assumir uma atitude solidária face à confissão ou a descoberta de pornografia na vida do cônjuge é uma competência importante a desenvolver, mesmo no cenário de crise relacional que esta circunstância facilmente desencadeará. É importante lembrar que “Aquele que encobre as suas transgressões, nunca prosperará. O que confessa e deixa, alcançará misericórdia.” (Provérbios 28:13). Assim, a confissão de uma falha é já um primeiro passo para a resolver e, embora chocante num primeiro momento, não deve deixar de ser apreciada nesse sentido. Kirk Franklin, que contou com todo o apoio da esposa, afirma hoje: “Estou a caminhar em vitória e há cinco anos e meio que não voltei à pornografia, facto pelo qual dou a Deus toda a glória porque desde os meus 9 anos que lutava com isso.”

Em vez de observarmos actores que representam o seu papel, Deus deseja fazer de cada um de nós os verdadeiros protagonistas de felicidade e do prazer na relação conjugal e familiar – uma arte que Ele nos encoraja e ensina a desenvolver.

“Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como cerva amorosa, e gazela graciosa, os seus seios te saciem todo o tempo; e pelo seu amor sejas atraído perpetuamente.” (Provérbios 5:18-19)

 

Webgrafia

http://www.crossrhythms.co.uk/articles/music/Honest_And_Vulnerable/18416/p1/

http://www.everystudent.com/wires/toxic.html

http://www.sexualrecovery.com/articles/new-technologies-emerge-to-address-porn-addictions.php