Numa das viagens que efectuei a Portugal, após a nossa chegada a Macau no ano de 1989, na alfândega do aeroporto de Lisboa quiseram saber o que vinha na bagagem. Entre outras coisas, comigo trazia um equipamento fotográfico analógico de uma marca bem conhecida, que recentemente havia adquirido em Hong Kong, que incluía o corpo, a lente e um flash. Depois da verificação efectuada, o funcionário da alfândega perguntou-me se eu iria trazer de volta o referido equipamento quando regressasse a Macau, onde vivi com a minha família por cerca de oito anos. Respondi-lhe que sim, que era essa a minha intenção.

Durante os dias que permaneci em Portugal, tive a oportunidade de assistir a uma conferência de cariz evangélico, onde utilizei a máquina fotográfica. Nessa ocasião, alguém reparou no equipamento que eu usava para fotografar e perguntou-me -me se eu gostaria de o vender. Disse que não poderia fazê-lo, por uma razão muito simples: “Havia comprometido a minha palavra diante daquele funcionário na alfândega”.

Por vezes, manter a palavra é uma das atitudes mais difíceis de assumir, concordará comigo. Se dúvidas houvesse quanto à “dificuldade” que certas pessoas, particularmente as que estão ligadas à política, experimentam em se manterem fiéis àquilo que dizem, o que prometem, o caso de Paulo Portas é disse testemunho evidente. Portas, o ministro que foi, que deixou de ser, para voltar de novo a ser, tudo no espaço de algumas horas, na carta que escreveu ao Primeiro-Ministro dando conta da sua intenção de se demitir do governo, dava como “irrevogável” a sua decisão, para mais tarde “revogar” aquilo que, segundo ele, era irrevogável.

 Vivemos dias e fazemos parte de uma sociedade em que é relativamente fácil quebrar a palavra. O que é verdade hoje, deixa de o ser amanhã. Aquilo que é conveniente dizer-se hoje, num determinado momento, por uma questão de ser agradável, por exemplo, quebra-se no outro dia. Vemos isto acontecer nos relacionamentos, nos negócios, na profissão de fé, quando prometemos seguir fielmente a Jesus todos os dias da nossa vida, para o abandonarmos posteriormente, no casamento, quando “juramos” fidelidade um ao outro, até que a morte nos separe, o que não passa hoje em dia de mera retórica religiosa, para logo mais nos envolvermos numa relação ilícita, que não tem a aprovação de Deus, sem o menor dos escrúpulos, sem nos preocuparmos minimamente com o sentimento do outro. É aquilo que nós em português dizemos de “Dar o dito por não dito”, que de acordo com o Dicionário Aulete quer dizer: “Desconsiderar a promessa feita, ou recuar de compromisso assumido, ou ainda, “desdizer-se, negar o que dissera antes”. Fico a pensar, o que aconteceria, se, por exemplo, as promessas de Jesus e, de uma forma geral, as promessas que encontramos na Bíblia, se não cumprissem, quando os cristãos nelas se firmam e nelas encontram motivação para viver? Por outro lado, dá-nos uma enorme segurança, saber que “…Aquele que prometeu é fiel para cumprir” (Hebreus 10:23). Jesus certa vez afirmou: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar” (Mateus 24:35).

Recentemente li uma história acerca de um homem de negócio, que, numa conversa com o seu filho disse: “Meu rapaz”, “há duas coisas que são essenciais se desejas ter sucesso nos negócios”. “Quais são, Pai?” perguntou o filho. “Integridade e sagacidade”, disse o pai. “O que é integridade?”, perguntou o rapaz. “Sempre, não importa o quê, mantém a tua palavra, “ respondeu o pai. “E sagacidade?”perguntou o filho. “Nunca dês a tua palavra”, replicou o pai. “Eu não sei o que é pior – quebrar a palavra ou nunca dá-la, questiona o Rabbi Yechiel Eckstein a este propósito, acrescentando: “o facto é que vivemos numa sociedade onde ambos são predominantes”.

No seu dia-a-dia, o homem de uma forma geral, e o cristão em particular, que deseja pautar a sua vida de acordo com os padrões por Deus estabelecidos, que deseja agradar-lhe em todas as coisas, trava diversas lutas, particularmente no que respeita a manter-se puro, longe da imoralidade, no seio de uma sociedade impura. Luta também contra o materialismo, um “caminho que se caracteriza pelo amor ao dinheiro”, como salientou São Paulo (I Timóteo 6:10), do qual devemos fugir (v.11). Tem que lutar igualmente contra “desejos perniciosos”, aqueles que tendem a dominar o coração do homem, por exemplo, o desejo de possuir aquilo que não lhe é devido. Luta ou deve lutar contra os “ídolos”, tudo aquilo que... E, claro, trava a luta pela integridade, que tem a haver, entre outras coisas, com o manter a palavra. O líder do maior partido da oposição em Portugal, acusava recentemente o primeiro-ministro de “faltar à palavra”, quando em campanha eleitoral afirmou que não aumentaria os impostos, fazendo precisamente o oposto. Infelizmente, em política é assim que acontece.

Termino, citando de novo a Bíblia: “Quando um homem fizer uma promessa em honra do Senhor ou assumir um compromisso por juramento, não deve faltar à palavra; deve cumprir tudo exactamente como prometeu” (Números 30:2). Ou seja, deve manter-se fiel à palavra.

Como seria diferente o nosso mundo, o nosso dia-a-dia uns com os outros, se assumíssemos o “compromisso” de não hipotecar em ocasião alguma a palavra que sai dos nossos lábios. Ora, aqui está um bom propósito sobre o qual trabalharmos para alcançar! É essencial manter a palavra!

Abel Tomé