Pegou na viola e voltou para casa, entusiasmado com a ideia de a refazer. Levou muito tempo, deu-lhe muito trabalho, talvez mais do que ele imaginara. Finalmente ficou pronta.

Interrompeu a sua história e dirigiu-se a uma mala que estava perto de si. Abriu-a e retirou dali uma viola. Ali estava! Era aquela mesma!  E tocou uma música para nós. Daquele instrumento que fora destruído e deitado fora, agora era possível obter uma melodia tão agradável. Então ele aplicou esse princípio às nossas vidas. Deus poderia fazer o mesmo com cada um de nós, mesmo que nos sentíssemos destruídos pelas desventuras da vida. O Toni Barbosa, actual Director da comunidade de inserção do Desafio Jovem, em Fanhões, deu o seu testemunho pessoal. Também ele estivera preso e Deus mudara a sua vida de uma forma extraordinária.  Recordo-me do apelo final – um convite a que cada um ali entregasse a sua vida a Deus. Muitos foram à frente. Eu não fui, continuando a observar tudo, com curiosidade.

Fora detido preventivamente, e ali ficaria por 90 dias, acabando por ser libertado por falta de provas.

Logo no dia em que saí em liberdade, a minha mãe que, entretanto aceitara Jesus, insistiu em que eu fosse com ela à igreja. E foi assim que se iniciou a minha vida com Cristo.

Conheci a Sandra na igreja e começámos a namorar. Vivi um tempo muito bom. Era o iniciar do meu caminhar como cristão.  Contudo, recaí nos consumos. Reconheci que precisava de ajuda e comecei a frequentar o Convívio do Desafio Jovem, em Lisboa como um primeiro passo para a entrada no programa terapêutico. Dada a instabilidade que ainda marcava a minha vida, fui preso de novo e condenado a 2 anos de prisão.  Nos 18 meses em que estive preso, o António Barbosa e o Pedro Bogalho, que eu conhecera naquele dia na prisão no Montijo, passaram a estar comigo todas as semanas, à terça-feira, em reuniões que ali tinham, de apoio a reclusos, encorajando-nos a uma vida nova.

Logo que que fui libertado, entrei para o programa terapêutico do Desafio Jovem, na comunidade no Lourel - Sintra – uma necessidade premente, dados os consumos de drogas que há alguns anos minavam a minha vida. Casei durante o programa. Deus presenteou-nos com duas filhas gémeas: a Sara e a Catarina.

Depois de 25 meses a trabalhar secularmente, a Sandra e eu tomámos a decisão de vir servir no Desafio Jovem, onde eu fora ajudado. Começámos por um tempo no grupo de voluntários – a Operação Josué. Entretanto, estudámos no Instituto Bíblico, em Fanhões, durante 1 ano. Logo que graduámos, em 1998, começámos a trabalhar nas comunidades terapêuticas do Desafio Jovem, onde continuamos a servir a Deus.

Foi na comunidade de Alter do Chão que nasceu mais um filho, o Lucas, e se abriu a possibilidade de eu servir a Deus junto da população prisional, em Castelo Branco. Voltar a entrar naquele espaço fechado, não como recluso mas para fazer por outros aquilo que fizeram por mim, foi uma experiência apaixonante que ficou em mim para sempre. Actualmente, lidero grupos de apoio a reclusos nas prisões de Lisboa, Caxias (Reduto Norte e Reduto Sul) e em Alcoentre, num alcance total de cerca de 100 homens. Temos ainda um grupo que apoia reclusos em Vale de Judeus. Com eles desenvolvemos o programa Ponto de Viragem (uma excelente ferramenta de apoio preparada especificamente para a população prisional) e também a ajuda individual.

Servir a Deus nas prisões é algo espetacular, apaixonante, que vai para além daquilo que é possível explicar. Ver a satisfação deles ao chegarmos, e também o desapontamento quando informamos que não poderemos ir num determinado dia, e ver a mudança real nas suas vidas é algo de valor incalculável. Ao longo deste tempo, muitos têm beneficiado de saídas jurisdicionais (precárias), que vêm passar connosco no Desafio Jovem, onde têm a oportunidade de conhecer o nosso programa de apoio e desfrutar do ambiente acolhedor que nos empenhamos em proporcionar-lhes. É uma satisfação grande recebê-los, mais tarde, no programa e prestar-lhes todo o apoio.

Completam-se 20 anos a servir a Deus, junto de população em necessidade. No meio de tudo o que faço e vivo, a paixão de ir semanalmente às prisões, estar com os reclusos e apoiá-los é um sentimento inexplicável. É vermo-nos envolvidos no cumprimento do mandato bíblico “Lembrai-vos dos presos como se estivésseis presos com eles.“ (Hebreus 13:3).

Paulo Martins