Sozinho em casa

Com a idade de 4 anos, para ser exacto, eu não conseguia entender porque é que a minha mãe nunca estava em casa, ou pelo menos eu sentia como se ela nunca estivesse em casa. A única altura em que lembro de ver a minha mãe por perto era cedo, de manhã, quando era altura de me levantar.

Ao longo dos anos, à medida que fui crescendo, muitas vezes me interroguei, na minha mente, sobre as condições em que a minha mãe e eu vivíamos. Agora pergunto a mim mesmo: como é que uma mãe deixa sozinha em casa uma criança de 4 anos, entregue a si mesma? Eu não iria nem poderia fazê-lo, alguma vez. Ou faria? A verdade é que eu não sabia nem compreendia a condição de vida da minha mãe, naqueles poucos anos em que vivi com ela. Agora tenho um conhecimento e uma compreensão melhores de quão dura e frágil a vida pode ser. Acredito que nós só sabemos o que é que conseguimos ou não conseguimos fazer quando enfrentamos o medo, face-a-face.

 

O orfanato

Era um lugar muito grande, com muitos meninos que brincavam por ali. Parecia uma escola. Não sabia o que havia de fazer, por isso fiquei ali quieto, a observar tudo à minha volta. A mãe tinha entrado num escritório onde as pessoas crescidas conversavam e eu estava ali, de pé, à espera que ela saísse. Não levou muito tempo até que ela viesse. Nessa altura, já algumas crianças se tinham aproximado de mim e perguntavam-me qual era o meu nome.

O meu primeiro pensamento foi que eu estava num infantário, só que era diferente daquele onde eu costumava ir. Agora eu conseguia compreender porque é que tínhamos trazido toda aquela roupa connosco; eu iria ficar no Infantário por mais do que um dia. Não seria a primeira vez que a minha mãe me deixaria alguns dias seguidos no Infantário. Quando me apercebi, a minha mãe já se tinha ido embora, como sempre. Às vezes ela dizia-me adeus, outras vezes não. Também eu não tivera tempo para dizer adeus, pois estava ocupado a brincar com os meus novos amigos. Pensando nisso agora, eu deveria ter dito adeus. Embora eu não o soubesse, aquele seria o último dia em que eu veria a minha mãe por muito, muito tempo. 

O orfanato foi o meu lar nos dez anos seguintes da minha vida. Esses dez anos foram, também, os mais dolorosos da minha vida. Ali eu era o nº 64. Tudo o que eu queria era a minha mãe, uma família como as que eu via na rua. 

 

 

 

O desenho

O desenho era uma maneira de me alhear da vida que estava a viver.

A arte foi a minha maneira de separar a realidade dura de uma ficção melhor. Sempre que me propunha desenhar alguma coisa, sentia-me como se tivesse deixado este mundo e ido para outro. Afinal, havia tanto que eu queria esquecer mas não sabia como, especialmente o dia em que a minha mãe me deixara no orfanato. Para mim, desenhar foi o modo perfeito de não pensar naquilo que era tão doloroso e também lidar com as lutas que ia enfrentando. A partir do meu primeiro desenho, entendi que tinha talento, e fez-me concentrar aí a minha atenção. Tinha e ainda tenho a capacidade de olhar para uma imagem e desenhá-la tal como é. Então eu gostava muito de desenhar os personagens dos desenhos animados da TV, especialmente os do Dragon Ball. Também gostava e gosto muito de desenhar rostos de pessoas, fazer retratos.

Desenhar, para mim, era também uma competição com um amigo “irmão” meu da instituição.

Durante a maior parte da minha infância, senti-me muito sozinho. À medida que os anos passavam, o meu desejo de ter uns pais começou a desvanecer-se. Estava a perder a esperança de ter pais, uma família, alguém que mostrasse amor por mim.

  

 

O futebol

O futebol era a minha paixão. “Gostarias de jogar no torneio da escola?” Esta foi a pergunta que um colega da escola me fez, sabendo quão bom eu era nesse desporto. “Sim, claro”, Respondi logo. Este torneio iria mudar a minha carreira no futebol para sempre. O primeiro e último jogo parecia tão promissor. Estávamos a ganhar à maior equipa da escola, o que não seria comum. Com certeza, todos tinham a expectativa de que a outra equipa, muito mais forte, iria ganhar-nos, e com grande vantagem. Contudo, eles estavam errados. A nossa equipa, com dois bons jogadores um outro colega e eu, estávamos a caminho da vitória. Eu estava a dar o meu melhor, a dar tudo pelo jogo. Logo a seguir ao 3º golo, com uma marcação de 3-0, corri pelo campo a celebrar e, entre todos aqueles rostos que observavam o jogo, quem é que eu vi lá em cima? As duas gémeas lindas da escola, que olhavam para mim. Aquela era a minha oportunidade de mostrar não só à escola mas também elas de quanto eu era capaz. Então corri para outro passe da bola e o joelho esquerdo cedeu, rasgando os ligamentos. O jogo havia terminado para mim, e em vez de dança da vitória, as lágrimas correram-me pelo rosto ao cair no chão com tantas dores. Quando me apercebi, já a ambulância estava ali para me levar para o hospital. “E agora?” Esta era a pergunta que repetia para mim mesmo. “O que é que eu vou fazer com a minha vida?” Tinha 12 ou 13 anos de idade. Eu não era um grande aluno e o futebol era a minha oportunidade de me tornar alguém grande. Não sabia o que pensar ou o que fazer. Acabámos por perder o jogo, nessa tarde. Estava a tornar-me um jovem. O que eu não sabia é que havia alguém que me observava. Alguém que cuidava de mim e que tinha planos para a minha vida. O Seu nome é Jesus. 

 

Um relógio e uma fotografia

A minha mãe voltou para me ver, 3 anos depois de me ter deixado ali no orfanato. Uns dias antes, alguém me informara que ela viria, mas algo me dizia que eu não deveria acreditar nisso. Tinha cerca de 7 anos quando ela veio. Não sabia o que pensar, depois de todo aquele tempo à espera que ela voltasse. Senti-me feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Já não a sentia mais como minha mãe. Sentia mais como se ela fosse uma pessoa estranha. Não lhe disse nada porque não sabia o que dizer. E não me lembro de alguma coisa que ela me tenha dito. Lembro-me que foi à tarde, o sol estava quente, devia ser Verão. Fomos a uma feira que havia ali perto, com muitos carrosséis e muita comida. Andámos por lá, a observar os carrosséis e as pessoas à nossa volta. Lembro-me de andar às voltas por lá e ter, na minha mão esquerda, o algodão doce. E com a mão direita ia tirando pedacinhos e levando à boca. Um de cada vez. Era algo bom que eu não queria que terminasse: o nosso passeio e o algodão doce. Começava a divertir-me com o passeio quando foi tempo de voltar. Foi mesmo assim, uma visita muito, muito rápida. De certeza que pensei que, a partir daquele dia, ela viria visitar-me mais vezes, mas eu estava errado. Foi altura de dizer adeus, mas desta vez eu não estava distraído com outras crianças, como sucedera na primeira vez. Ela olhou para mim e deu-me um relógio, dizendo que aquele relógio pertencera ao meu pai, e uma fotografia dela. Aquilo parecia-me um “Adeus”. Mas, de facto, não foi um “Adeus, até à próxima.” Aquela foi a última vez que vi a minha mãe.

Pelo menos, eu tinha ficado com alguma coisa dela e do meu pai, pessoa que eu nunca vira, como uma recordação deles para mais tarde.

 

Oitenta meninos

“Elisa, pode ajudar-me? Preciso de um favor seu…”

Elisa mostrou-se logo disponível. Portuguesa, residia nos Estados Unidos há 13 anos, tinha vindo passar um ano a Portugal, com o marido, o Gary, e os seus três filhos: o David-Alan, a Shana e a Raquel, num tempo que queriam dedicar a este país, com um sentido missionário. Ainda solteiro, Gary já participara em projectos missionários em África, na Nigéria, onde, como cirurgião ortopédico, tivera a oportunidade de fazer intervenções cirúrgicas gratuitamente e, desse modo ver devolvida a mobilidade a algumas pessoas. Ver-lhes os sorrisos deliciava-lhe a alma.

Elisa era filha de missionários. Vivera parte da sua infância no longínquo Timor, onde vivera com os seus pais e irmãos tantas experiências de ajuda a populações em necessidade, que se traduziam em alimentação, cuidados médicos, acolhimento e palavras de conforto… Este ano no Algarve, em Almancil, era mais uma experiência de voluntariado, que vivam agora como casal, no apoio ao GBU (Grupo Bíblico Universitário) local.

A senhora inglesa prosseguiu: “Tenho uma oferta para ir levar a uma instituição de acolhimento de crianças, mas não sei falar português. Poderia ajudar-me, como intérprete?”

“Sim, com certeza”, respondeu Elisa, com o seu sorriso franco e habitual. No dia combinado, foram as duas a um edifício grande, que Elisa via pela primeira vez. Mal entraram, começaram a ver meninos e mais meninos, que surgiu e que as observavam com curiosidade. Sim, viviam ali cerca de 80 meninos, desprovidos de suporte familiar.

 

Uma família especial

Elisa passou a visitá-los, agora já acompanhada pelo seu marido e os seus filhos. E foi nessa altura que eles me conheceram. Na verdade, aos 13 anos encontrei alguém que mudou a minha vida como nunca antes acontecera. Foi a família Rubin. Eles viram algo em mim, uma fome por pais. A fome por ter alguém a quem chamar Pai ou me, irmão ou irmã. Alguém a quem eu pudesse dar amor e receber amor. Eles eram e são até hoje tão queridos para mim, tão solícitos comigo. Eles eram Jesus, em carne e osso, sempre a pensar em como me poderiam ajudar.

A família Rubin passou a levar-me para sua casa, uma ou duas vezes por semana, por sua iniciativa. Ninguém, antes fizera isso comigo. Era maravilhoso deixar o orfanato, de vez em quando, para ir visitar a família Rubin.

Com o decorrer do tempo, tornámos-nos bons amigos. No meu coração, eles eram a minha família. É maravilhoso como Deus trabalha nas nossas vidas, as pessoas que Ele traz às nossas vidas. Umas pessoas são boas e outras são más. Deus usou a família Rubin para me ensinar o valor de ter uma família. Foram eles que me apresentaram os meus pais adoptivos. Ía ser um filho, outra vez. Mas não iria ser tão fácil como eu pensava. Um filho de uma família americana, a família Marini.

 

A adopção

Através da adopção, saí do orfanato aos 14 anos, em 2001. Senti-me muito feliz por saber que estava a deixar um lugar onde vivera 10 anos, por um número de razões. Mas, mais do que tudo, eu sentia-me feliz por saber que iria ser um filho. Iria ter uma família verdadeira, um cão, uma casa, um quarto a que poderia chamar meu e por muito mais razões.

Também me sentia um tanto triste, por deixar os meus “irmãos” com quem eu ali crescera. Alguns estavam felizes por mim.

 

O primeiro encontro

Depois de sair da instituição, ainda fiquei uns dias em Lisboa, num hotel, com a minha mãe adoptiva, a tratar dos meus documentos, para partirmos. O meu pai já voltara à América, por motivos profissionais. As diligências a fazer levaram mais tempo, cerca de seis semanas. Para se tornar mais económico, passámos para um alojamento, alugado, no Instituto Bíblico, em Fanhões, nos arredores de Lisboa. Foi um desafio, e um tanto estranho para mim, estar ali com a minha nova mãe adoptiva, sem saber falar inglês com ela. E tenho a certeza de que para ela também não terá sido fácil, uma vez que também não falava português. Então como é que comunicámos durante essas seis semanas, no Instituto Bíblico? Utilizando um dicionário, palavra a palavra. A minha mãe também fazia desenhos simples de coisas que me queria dizer. Ajudou-me muito a compreender o que ela tentava dizer-me.

Durante esse tempo em que ali vivemos, fiz uma amiga. Chamava-se Melissa e era 5 anos mais nova do que eu. Como eu não tinha ninguém da minha idade com quem brincar, estávamos sempre a brincar juntos. Passeávamos ali pelo jardim do Instituto, jogávamos ping-pong e íamos conversando.

E, durante anos, não nos vimos mais.

 

Chegada à América

A viagem de avião foi longa e muito diferente de tudo aquilo que eu já experimentara. Com o rosto chegado ao vidro, contemplava as nuvens, lá de cima, e pensava no que fora a minha vida e no que poderia ser a partir dali. Acabara de conhecer os meus pais adoptivos e ia para um país onde conhecia apenas a Elisa, o Gary e os seus filhos. Nunca estivera lá e não sabia muito sobre a vida naquele lugar. Em inglês, falava algumas palavras que aprendera na escola, nada mais.

Observava o ambiente à minha volta, com curiosidade. Era a primeira vez que andava de avião e tudo era novidade. Na verdade, uma viagem de camioneta, algures no Algarve, mudara a minha vida, há 10 anos atrás. Agora era uma viagem de avião a mudar a minha vida, de novo. Desejava e acreditava que seria para melhor.

 

Notícias

Lembrava-me do jantar em casa da Bertina e do Abel, pais da Melissa. Conhecera-os na fase em que aguardava o visto para ir para a América. A minha mãe adoptiva não falava português, eu ainda não falava inglês suficiente para uma comunicação fluída, e por isso era com esta família que eu falava. Essa família ficara-me na memória, como uma amizade agradável, onde se destacava a Melissa. Uns dias depois de chegar, enviei um e-mail à Bertina, contando que havia chegado bem e dando notícias sobre aqueles primeiros momentos no novo país. Finalmente, escrevi: “Gostava muito que a Bertina fosse alguma coisa a mim…” Ela respondeu-me que sim, com muita satisfação ficaria a ser como uma tia ou uma madrinha para mim. Não sabia eu, naquela altura, que, sim, viria a ser minha família: minha sogra!

 

O Facebook a funcionar:

Depois de concluir o ensino secundário, decidi ir trabalhar, como referi antes. Um dia, no intervalo do trabalho, em vez de sair do edifício e ir lá fora, como todos habitualmente faziam, decidi ir a um dos computadores para ver o que havia no Facebook. Logo que entrei, vi que tinha uma notificação sobre um dos desenhos que eu fizera. Era a minha “velha” amiga Melissa, com quem eu não falava há tanto tempo. A mensagem era tão simples quanto isto: “So cute” (“Tão querido”, em português). Referia-se a um desenho do meu irmãozinho, mais novo, que eu tinha feito. De todas as pessoas que eu conhecia, não esperava que a Melissa viesse comentar o meu desenho, pois já haviam passado dez anos desde a última vez que tínhamos falado. Essas recordações do tempo que passámos juntos, ainda miúdos, começaram a vir à minha mente, incluindo a lembrança de quão doce era aquela família. Logo de seguida, fui à sua página e comecei a ver as fotografias dela com curiosidade, para saber como é que ela era agora, depois de todos esses anos.

“Uau”, disse para mim mesmo. Ela tinha crescido e tinha-se tornado uma mulher muito bonita. E foi a partir desse momento que voltámos a conversar. A maneira como dialogávamos um com o outro era como se nunca tivéssemos perdido o contacto, como se fôssemos os melhores amigos desde o dia em que nos vimos pela primeira vez. Pensava na Melissa todos os dias. Ela mostrava tanto interesse em mim. Gostava de saber tudo sobre mim, e eu sobre ela. Naquela altura, algo mais do que amizade começou a crescer nos nossos corações.

Depois de deixar Portugal, nunca pensei que voltaria, sobretudo por causa de tudo aquilo que tinha passado. Acho que quando pensei nessa possibilidade, pus de lado tudo o que tinha sofrido. O que era importante era saber que iria estar perto da Melissa. Isso era tudo o que eu desejava. Então eu requeri um passaporte americano com a decisão de voltar a viver em Portugal, perto da Melissa.

A decisão de deixar a América foi difícil, não apenas por ser o meu lar mas por causa da minha família. Eles não conseguiam compreender a minha razão e a minha decisão de me mudar para Portugal. Consigo entender que não terá sido fácil para eles, mas eu já não era mais uma criança. Tinha 26 anos e era altura de viver a minha vida da maneira que eu queria. Mesmo que não viesse a ser um sucesso, eu tinha que tentar. Deixar os meus pais foi difícil mas deixar o meu irmãozinho ainda foi mais duro. O meu irmão não era adoptado, era filho biológico dos meus pais. Queria tanto ficar, vê-lo crescer e estar lá para ele sempre que precisasse de mim. Temos 20 anos de diferença e sei que ele poderá não compreender a minha razão e a minha escolha de sair mas tenho fé que um dia ele entenderá.

Finalmente cheguei a Portugal, um mundo completamente diferente. Apesar de ser português, era difícil para mim falar ou entender português. Assim que comecei a descer a rampa de chegada, reconheci logo a Melissa ali à minha espera, com os seus pais. Veio na minha direcção e abraçou-me, com lágrimas nos olhos, como se estivesse a viver um sonho. Eu não podia sentir-me mais feliz por, finalmente, estar com ela. Ao longo de dois anos, tantas vezes tínhamos falado neste dia. Ser verdade, era agora uma bênção!

Acredito que se eu não tivesse dado ouvidos ao meu coração, eu nunca teria casado com a Melissa. Antes de eu sair da América, houve pessoas que me transmitiram a ideia de que eu estava a cometer um erro. Como é que eu podia deixar um país cheio de oportunidades, onde toda a gente quer ir, para viver num país de condição mais limitada, de onde tantas pessoas estavam a emigrar, à procura de uma vida melhor? A minha resposta foi e ainda é esta: Deus está no controle da minha vida e onde quer que eu vá, Deus está lá. Então, porquê preocupar-me?

A Melissa e eu somos casados há dois anos. Muitas vezes olhamos para trás, e pensamos em tudo aquilo que passámos para que fosse possível ficarmos juntos. Acreditamos que Deus esteve e está no controle das nossas vidas. Amo a minha vida, mesmo quando as coisas não correm à minha maneira, e não mudaria nada, nem mesmo o meu passado. Sou o homem que sou hoje por tudo aquilo que aconteceu na minha vida, bom ou mau. Estou grato por tudo.

Agora temos um novo membro na família. O nome dela é Chewy. Gosta muito de usar os dentes para roer tudo. É uma cadela simpática. Somos adoptados, os três!

Excerto do livro Adoptados e Unidos pelo Amor. Usado com permissão.

Nota

Já depois de finalizado o livro, o Vitor encontrou-se com a sua mãe biológica, tendo conhecido igualmente outros membros da família com quem mantém contacto. Há sete meses foi pai pela primeira vez, um lindo menino chamado Brandon.