Brian Zahnd é o pastor fundador da Word of Life Church, uma congregação cristã no coração da América, na cidade de Saint Joseph, no Estado do Missouri. É casado com Peri e têm 3 filhos.

Há trinta e um anos que a sua visão para a Igreja é no sentido dela ser uma autêntica expressão do Reino de Jesus num mundo pós-moderno. Brian Zahnd é conhecido por abraçar a longa e profunda história da Igreja e participar de todo o coração na missão de Deus para redimir e restaurar o Mundo.

Brian e Peri fundaram a Word of Life Church, no Outono de 1981, com um pequeno grupo de jovens, num antigo prédio de uma Igreja Metodista a qual, durante anos, lutou pela sua própria sobrevivência. Mas Brian empenhou-se em espírito de fé e de oração e a igreja começou a crescer, drasticamente. Hoje a Word of Life Church é uma congregação próspera, com um enorme número de voluntários apaixonados por Jesus, pelo seu Caminho e pela sua Missão.

Brian Zahnd é autor de três livros: «O que fazer no pior dia da sua vida», «Incondicional?», editados em Portugal pela Letras d'Ouro, e Beauty Will Save The World.

Entrevista realizada a 11 de Abril de 2013, pelas 16h30, nas instalações da Aliança Evangélica Portuguesa.

Joaquim Cerqueira – Brian Zahnd é relativamente desconhecido em Portugal. Em geral, as pessoas poderão relacioná-lo apenas com os dois livros que escreveu e que estão traduzidos em português, mas não conhecem a sua vida nem o seu ministério. Pode partilhar um pouco sobre si?

BrianZahnd Claro! Sou o produto daquilo a que chamamos o “Movimento Jesus”, isto é, eu tive um encontro real com Cristo quando era adolescente. O “Movimento Jesus” era, basicamente, um bando de hippies que encontrou Jesus Cristo. E assim, esse é o meu contexto! Então, a partir daí, a nossa igreja foi formada, há 30 anos atrás. E isso é o que eu fiz com a minha vida: tenho pregado o evangelho e pastoreado pessoas desde há 30 anos e, ao longo do caminho, há cerca de seis anos para cá, comecei a escrever livros. Isso abriu portas diferentes mas ,na verdade, a minha vida é pregar e ensinar o evangelho, e ser o pastor de uma congregação bem no meio da América, no Missouri. Se consegues imaginar a América, nós estamos lá bem no meio.

JC –É por isso que encontramos nos seus livros referências a Bob Dylan, Larry Norman…

BZ -Sim, as pessoas conhecem-me como uma espécie de teólogo, filósofo, pastor e fã do Bob Dylan. Gosto muito da sua arte e da sua música. Sim, mencionou Larry Norman e todos aqueles músicos da altura… Phil Keaggy! Na verdade Phil esteve em minha casa não há muito tempo. Sim, é de onde eu venho, essas são as minhas raízes.

JC - Sabemos que completou há pouco tempo 30 anos de ministério. Pode contar-nos alguns dos momentos mais importantes e marcantes do seu ministério?

BZ -Os momentos mais significativos de há 30/31anos, eu não sei. Sabe, é apenas continuar a fazer isto, dia após dia após dia. Mas o mais importante, são as coisas que realmente mudam e que não se consegue prever ou antecipar: é um livro que lemos, é alguém que encontramos, é uma crise que enfrentamos e suportamos, e estas coisas ao longo do tempo moldam e formam-nos, e eu posso falar sobre autores que eu li, posso falar dos momentos difíceis no ministério, e eu posso falar sobre o meu neto. Eu sou avô há já algum tempo...tenho um neto com 3 anos (fará em breve 3), a quem foi diagnosticado um cancro há perto de um ano, com cerca de 30% de probabilidade de sobreviver, mas ele conseguiu ultrapassar o problema. Hoje ele está livre do cancro. Portanto, são todas estas coisas somadas que nos formam e nos conduzem àquilo em que nos tornamos.

JC - Sabemos que a igreja que fundou e pastoreia, a Igreja A Palavra da Vida (Word of Life Church) lutou por muitos anos pela sobrevivência até se transformar na grande igreja que é hoje. Como é que essas lutas o moldaram como Pastor, líder, pai, como homem?

BZ -Sim, se não lutarmos ficamos pessoas superficiais, e a dor lança a morte sobre a nossa alma. Na verdade, os primeiros sete anos da nossa igreja foram difíceis no sentido de que era pequena e com lutas. Até que depois o crescimento começou e cresceu grandemente, em especial no final dos anos noventa e talvez no início de 2000. Foi um crescimento tremendo, e eu tive de sobreviver a isso também. E porque isso é uma ameaça e então eu não sei porquê, há 8/9anos atrás, quando tudo estava a ir muito bem, eu senti que precisávamos de fazer uma transição, senti que o todo o nosso ministério tinha sido, talvez, um pouco superficial ,demasiado simplista, e pensei “Ok, vamos ter que ser mais substanciais, mais sérios”. Nem todo o mundo entende porque fazemos uma mudança como esta, e acaba por ser mal-interpretado. E existe um fenómeno peculiar nos Estados Unidos, pelo menos eu acho que é peculiar, até certo ponto, que é a fusão da fé cristã e da agenda política norte-americana, a que eu com a minha voz tenho tentado opor-me e tentado desenredar a fé cristã da agenda político-partidária, e o que muitas vezes não tem sido feito de uma forma amigável. Nós temos aquilo a que chamamos na América (eu não sei se estão familiarizados com o termo), a direita religiosa. A direita religiosa ficou muito irritada comigo quando eu a desafiei e procurei afastá-la do nacionalismo e da mistura da fé cristã e do interesse nacional da América, como se fossem uma e a mesma coisa, e assim tenho sido uma voz, na verdade, nos últimos 5 a 6 anos. Eu acho que isto é importante e eu acho que isto está certo. Isso também me tornou impopular em muitos outros círculos.

JC – Acabou de falar acerca da mistura entre o Cristianismo e a política. Tem alguma ligação com o Jim Wallis (Sojourners) e o movimento “Chamada para renovação” (Call to renewal)?

BZ -Estou familiarizado com o Jim, embora não o conheça pessoalmente, mas muito familiarizado com o que ele faz. E eu diria que nós compartilhamos, provavelmente, muito. E não é que a fé cristã não seja política, é política, porque é o reino de Deus, o governo de Deus, é a política de Deus, mas o que acontece é que, o que está a acontecer no nosso caso, nos Estados Unidos, temos um determinado partido, movimento que já tinha tentado sequestrar a fé cristã e os líderes cristãos. Os líderes cristãos conservadores são atraídos pela proximidade com o poder e eles com muita frequência estão dispostos a cavalgar, a aproveitar o passeio. Claro, que eu acho que isto é muito destrutivo para a fé cristã e assim Jim Wallis e outras vozes, procuram  chamar-nos para uma actualidade, uma presença mais fiel e mais profética.

JC - O seu primeiro livro é «O que fazer no pior dia da sua vida». Fale-nos um pouco sobre ele? Sei que se baseia na história de David registada em 1 Samuel 30.

BZ -Sim, é um livro muito pastoral. E sabe, eu trabalho com pessoas e é difícil viver! A vida é uma luta, nós fazemos uma cara corajosa e sorrimos tão frequentemente quanto possível, mas é difícil. Eu acho que quando digo que sou um pastor, sabe, foram-me concedidos alguns privilégios de estar perto das pessoas nos momentos de dor e quando elas passam por grandes crises. Penso que talvez o que elas precisam, acima de tudo, é daquilo a que eu chamo de uma narrativa de enquadramento. O que é uma forma de tomar aquilo pelo qual elas estão a passar e transformar isso numa história, para que possa fazer sentido e se pudermos fazer sentido daquilo porque estamos a atravessar e ver que na verdade é uma narrativa. Uma história que está a ser contada, e geralmente nós conseguimos ultrapassar isso. Podemos encontrar a força para seguirmos em frente. É quando sentimos como se nada faz sentido, que não há um propósito, que não há nenhum ponto de contacto, que não se vai a lugar nenhum, é quando o desespero vem e o que realmente se torna o nosso maior inimigo, como ser humano, não é a situação, nem a oposição, nem a dor tão difícil que isso possa ser, mas é quando o desespero chega, é quando nada disto tem qualquer sentido, que não faz sentido. O que eu tenho feito com este livro é ter uma história, e claro, é a Bíblia, e a Bíblia é um livro que conta a história de Israel e de outros, aprendendo a viver as suas vidas num relacionamento com o Deus vivo e por isso este livro conta uma grande história, com centenas e centenas de pequenas histórias. Eu tomo esta história em particular, como mencionou, de I Samuel 30, a história da vida de David e eu quero tomá-la como exemplo. David enfrentou esse dia horrível, onde tudo dá errado da forma mais dramática e ele ainda assim foi capaz de ultrapassar isso. Assim que eu tomo esta história e digo que não é propriamente uma receita, faz estes dez passos e tudo vai ficar bem, não é isso que está aqui. É simplesmente um padrão ou um paradigma que podemos colocar sobre as nossas próprias experiências. É sim um caminho, fazer disto uma história, pode ser que eu esteja a passar por algo semelhante, e como Deus foi fiel com David vou acreditar que Deus poderá ser fiel comigo. Portanto, eu escrevi um livro sobre estas linhas, e digo-lhe, fiquei surpreendido pela aceitação que o livro teve. Com isso quero dizer que muitas pessoas encontraram eco nele e eu não estou muito entusiasmado pelo livro. Eu acho que sim, está ok, e no entanto se as pessoas gostaram realmente, por isso, então, deve tê-las ajudado.

JC - Será possível traçarmos algum tipo de comparação com a atitude de David há 3000 anos atrás com o homem do século XXI, face a uma grande tragédia? Nós, os portugueses, estamos a enfrentar, provavelmente, uma das maiores crises da nossa existência, com quase 900 anos, o nosso futuro é incerto e sombrio, como podemos aprender do exemplo de David?

BZ -Em primeiro lugar, eu não acho que as coisas mudem assim tanto como nós julgamos. A tecnologia muda, mas as pessoas não mudam, seja há 900 anos, há 1000 ou há 3000 anos atrás. Basicamente, estamos a lutar com os mesmos medos, ansiedades e inseguranças, porque nada mudou e a Bíblia sabe disso. E, por isso, as histórias são relevantes hoje, quer sejam os amalequitas a roubar rebanhos de ovelhas ou o colapso dos bancos, ainda é a mesma coisa e assim, bem, onde está Deus no meio disto? Esta é a questão que temos enfrentado. Que Deus cuida, estará Ele próximo, estará longe, será Ele não existente, será Ele ambivalente, o que é que encontramos? Eu descobri que, se numa comunidade de confiança, numa comunidade de pessoas (é muito difícil fazê-lo sozinho) mas em conjunto, se podemos sofrer juntos, orar juntos e termos esperança juntos, quase sempre encontramos a força para fazer o caminho todo e sair do outro lado. Existe um outro lado, existe realmente! Saímos do outro lado, como pessoas mais profundas e ricas.

JC - Depois escreveu “Incondicional? – O apelo de Jesus ao Perdão Radical”. Fale-nos um pouco do livro. Por que sentiu a necessidade de escrever sobre o Perdão? E por que afirma que “se o cristianismo não tem a ver com perdão, então não tem a ver com nada”?

BZ -Ao contrário de "O que fazer no pior dia da sua vida?", “Incondicional” não é tanto um livro pastoral. Não é, na verdade, um livro sobre como lidar com questões de perdão pessoais na sua vida. Poderá obter isso, penso eu, do livro, mas não foi isso que me motivou a escrevê-lo. É ,na verdade, mais uma declaração teológica sobre o papel do perdão na fé cristã, com muitas histórias de como as pessoas se aperceberam disto. Mas eu digo-lhe o que eu não digo no livro. Aquilo que me motivou já o referi no início, e é difícil de comunicar, talvez, aqui em Portugal, o como as políticas partidárias se tornaram feias na América e temos cristãos evangélicos que tomam um partido em particular. O que se torna cada vez mais feio, numa abordagem ‘Nós versus Eles’. Basicamente o que este livro está a fazer é dizer que 'Nós versus eles' é anticristo. Se o Cristianismo é sobre alguma coisa, não é sobre retaliação, não culpa, não aponta o dedo, é sobre o perdão. Mas o centro da fé cristã é a cruz. Mas uma forma abreviada de dizer Cristo sobre a cruz, com os braços estendidos dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Eu estou sugerindo, ou melhor insistindo, que o nosso cristianismo deve assumir esse tipo de forma, deve ser semelhante a isso. Precisamos de ser uma presença reconciliadora e perdoadora no mundo ou então teremos traído a nossa fé e estaremos simplesmente a usar a nossa fé como base de poder, para nos opormos aos nossos inimigos. E o que quer que isso seja, não é cristão.

JC - Vemos diariamente na televisão e no cinema, homens e mulheres cheios de vontade de vingança, de retaliação e de ódio. Usando uma expressão sua, como poderemos “ser como Cristo num Mundo como César”?

BZ -Temos que ter duas coisas: temos que ter uma comunidade (não podes fazê-lo por ti mesmo) e temos que ter o Espírito. E a minha confissão é que Jesus Cristo não era meramente um especialista em ética. Ele não estava apenas a ensinar uma ética alternativa. Se Cristo não ressuscitou de entre os mortos, então é, o sermão do Monte está aberto à discussão e provavelmente encontraremos faltas. Mas se Cristo foi ressuscitado dos mortos isso muda tudo e isso significa que Deus não apenas justificou o próprio Cristo, mas validou o Seu ensino. E como comunidade de pessoas podemos incorporar, com a ajuda do Espírito Santo, a própria vida que Jesus Cristo ensinou e viveu. De modo que quando Jesus Cristo referencia a cruz, Ele não está apenas a dizer “ok, observa aquilo que Eu faço na cruz, senta-te aqui e observa aquilo que Eu faço”. Leia o que Ele disse: “Toma a tua cruz e faz isso comigo”, também aprendes a absorver a injustiça, a não retaliar, a não reciclar em vingança e violência, mas a reciclar isso em amor e perdão. Isso soa difícil, soa muito difícil, mas também é a única esperança que temos para o mundo, do como eu encaro as coisas. Mas se continuarmos a processara injustiça pela retaliação, num mundo com armamento nuclear, vamos encontrar uma maneira de nos destruirmos. Jesus Cristo é a alternativa.

JC –“Incondicional?” começa com o horror do holocausto. As pessoas poderão dizer que este é um exemplo extremo, a grande maioria das pessoas, eu diria que mais de 95% das pessoas não passam por estas situações extremas (campos de concentração, homicídio, violação, etc.). Mas, no entanto, a grande maioria delas não consegue perdoar ou pedir perdão relativamente às pequenas coisas da vida. O que diz acerca disto?

BZ -Sim, eu acho que trouxe Hitler para a página quatro e a razão por que fiz isso foi por ter realizado alguns debates e ter descoberto que Hitler aparece sempre nos debates. E sobre o Hitler? Então, eu senti que devia trazê-lo logo no início e não esperar que outros o fizessem. Por isso fui para os casos mais extremos e usei Simon Wiesenthal...

JC –Há duas semanas atrás, li uma frase acerca da reconciliação, que diz o seguinte: “A reconciliação é uma porta com duas chaves: perdoar e pedir perdão”. Concorda com ela?

BZ -Sim, acho. Significa que o perdão pode ser realizado de forma unilateral e é Deus que toma a iniciativa: “Pai perdoa-lhes”. A reconciliação requer uma resposta e isso acontece quando levantas questões sobre justiça e o restaurar para a justiça e do que precisa ser feito nesse âmbito. A reconciliação é muito mais complicada. Mas a reconciliação é afinal aquilo que Deus entende por justiça. Por exemplo, lemos sobre o filho pródigo que desperdiçou a sua herança e volta para casa. O pai recebe-o! O irmão mais velho tem um problema com isso, ele vê isso como uma injustiça. E este vai ser o seu argumento, ele vai dizer que esta situação carece de justiça. Eu penso que o pai diria: “Olha a herança perdeu-se, foi desperdiçada, não pode ser recuperada. O que foi feito, estava errado, e não pode ser desfeito. E aquilo que pode ser feito a este meu filho é ser recebido de volta na nossa família, ele pode ser restaurado para a comunidade e os relacionamentos podem ser preservados e restaurados”. E é isso que vai ter que contar para a justiça. Em termos de matéria penal pode haver punição e tudo isso. Mas tomamos tudo isso sobre nós, como uma comunidade, de modo que o indivíduo é livre para ser capaz de perdoar porque a justiça no sentido punitivo está fora das suas mãos. O meu pai era juiz e meu irmão é Procurador em Kansas City, portanto, eu venho de uma família, onde temos um juiz, um procurador e um pastor, por isso aprecio o papel do sistema de justiça criminal. Mas isso não significa que ele tenha alcançado o nível mais elevado daquilo a que Deus chama Justiça. Justiça não é apenas punição, embora eu não esteja a dizer que ela não deve ter lugar. Eu estou a dizer que a justiça final de Deus é a de que tem de haver reconciliação. Mas para que haja reconciliação tem que ser não apenas a oferta de perdão, mas também tem de ser o reconhecimento de que algo errado foi feito: o arrependimento.  Mas essa é a direcção em que se movem. E é por isso que no livro eu lido com a Comissão da Verdade e Reconciliação na África do Sul. Se a África do Sul negra, com Nelson Mandela, tivesse dito simplesmente: “Ok, vamos alcançar a justiça através da retaliação”, teria gerado um banho de sangue. Mas também não podiam dizer simplesmente, “Ou vamos esquecer isso ou não vamos esquecer isso”. Eles vão nomear e envergonhar o que estava de mais errado, e em seguida, oferecer uma maneira para que as pessoas possam ser recebidas de volta para a comunidade, reconciliadas.

Eu não acho que haja outra coisa, senão a fé cristã, que tenha os recursos para realizar isto. Agora esta é uma afirmação ousada. Eu não acho que para um ateu isso faça sentido. Nem acho que o faça para qualquer outra religião. E não posso ser o tipo de pessoa triunfalista quando  falo sobre a fé cristã. Mas eu estou a tentar ser muito honesto, aberto e objectivo, quando digo que nenhuma outra fonte ética ou qualquer outra religião tem o vocabulário ou os recursos para alcançar esse tipo de reconciliação.

JC - Lemos que a sua visão para a Igreja é no sentido dela ser uma autêntica expressão do Reino de Jesus num mundo pós-moderno. O Perdão pode ser essa expressão? Que outras expressões do Reino de Jesus pode a Igreja usar? E como é que esta visão está relacionada com o seu livro mais recente “A beleza salvará o mundo”?

BZ -Eu gosto desse livro! Não se pode reduzir a fé cristã a uma única coisa. O objetivo final da fé cristã é a vida de Cristo encarnada numa comunidade de pessoas. O perdão é muito central. No meu livro "A beleza salvará o mundo" procuro dizer algumas das mesmas coisas mas com uma nova metáfora. E aquilo que estou a fazer é dizer “vejam os filósofos gregos”. Se quiserem voltar a rever tudo sobre Aristóteles, ele falou sobre as três virtudes: a verdade, o bem e o belo. Na fé cristã damos muita ênfase à verdade e ao bem. Para podemos falar sobre apologética cristã, defendendo a verdade cristã, podemos falar sobre a ética cristã, defendendo o bom tal como o entendemos como cristãos. Mas há muito pouca ênfase na estética cristã, que é o belo. Agora, estas três virtudes estão sob pressão no mundo pós-moderno. As pessoas dizem, sim, não existe verdade absoluta. Quem diz o que é a verdade? A mesma coisa com o bem, não existe uma moral superior e também a beleza pode ser, em seguida, reduzida a um mero adorno ou imagem. A Igreja tem um instinto, sabemos que existe uma verdade absoluta e nós sabemos que existe um Deus. Mas a cultura do mundo secular em que vivemos, é muito desconfiada acerca da reivindicação da verdade absoluta e de uma moral superior. E é por isso que a minha questão é: por que não aproveitar a terceira alternativa, que é a beleza? Porque a beleza tem um jeito de esgueirar-se às nossas defesas e a que é que se assemelha uma vida cristã, quando vivida de forma bela? É claro que eu acredito que Cristo é a Verdade, é bom e é belo. Mas se colocarmos de lado a verdade e o bem, por um momento, eu acredito que a vida de Cristo é muito bela. E em certa medida, nós encarnamos uma vida semelhante a Cristo. E iremos descobrir que vivemos vidas bonitas, que as outras pessoas acharão cativantes e isso é parte do livro. É um livro longo e eu tenho muito a dizer sobre o assunto. Eu não o consigo resumir em 5 frases.

JC –Tendo em conta os temas de “Incondicional?” e de “A beleza salvará o mundo”, o que acha da atitude ou da política “Não pergunte, não diga” de algumas igrejas, relativamente à vida privada dos seus membros? E como podemos relacionar isso com 1 Coríntios 5, por exemplo, onde o apóstolo Paulo diz para “ entregarem alguém a Satanás” e as palavras de Jesus "Não julgueis, para que não sejais julgados"?

BZ - Essa é uma grande pergunta…  Sabe, eu pastoreio uma igreja, portanto eu não estou sentado numa torre de marfim a pensar sobre essas coisas e porque é que eu estou a fazer isto. I Coríntios 5 e outras passagens… Eu penso que o que temos em I Coríntios 5 é uma história de Paulo a lidar com uma circunstância em particular. Eu acho que Paulo iria ficar um pouco surpreendido se ele descobrisse que estávamos a usar as suas cartas como o Torah, em que elas se tornariam numa nova lei, numa nova regra. Se alguém na nossa igreja for, de certa forma, apanhado em flagrante a desrespeitar qualquer tipo de ética cristã e essa pessoa  tiver visibilidade e influência, então eu acho que nós temos de agir e fá-lo-emos, mas não estamos a tentar ser um clube de moralidade. Eu estou a falar da Igreja “A Palavra da Vida” (The Word of Life Church), São José (Saint Joseph),Missouri.  Não estamos a tentar policiar as pessoas, estamos a chamá-las para a mesa da comunhão cristã. Acreditamos que quando elas se sentarem à mesa com Cristo, serão transformadas. Não procuramos ser negligentes, mas também não estamos interessados em ser uma polícia da moralidade em tudo, porque eu penso que isso irá terminar muito mal, como quase sempre.

JC –Existe alguma ligação, um fio condutor, entre os seus três livros?

BZSim, existe. Bem, espera um pouco, quando eu disse três livros, poderia pensar num livro de que nunca ouviste falar, porque acaba de ser publicado. Deixando de lado "O que fazer no pior dia da sua vida?" que é um livro muito pastoral que ajuda as pessoas através de tempos difíceis, depois existem outros três, existe "Incondicional", existe "A beleza salvará o mundo" e um novo “O adeus a Marte” ("A farewell to Mars“), e em todos os três, isso não é dito.  Não irá ler isto escrito, mas todos os três são uma crítica ao paradigma do 'nós versus eles', o primeiro com a imagem do perdão, o segundo com a imagem da beleza e o terceiro com questão da paz, a fé cristã. O reino cristão é um reino de paz e este livro tem em mente um público norte-americano. As igrejas evangélicas americanas têm uma devoção muito equivocada pelo nacionalismo, pela violência e pela guerra. E, no meu último livro, desafio isso, crítico isso, chamando-os a afastarem-se disso, e posso prometer que é um livro muito controverso.

JC - O que diria, como um último pensamento, para desafiar e encorajar os cristãos portugueses e as igrejas em tempos de crise?

BZ - Que não estão sozinhos. Eu diria que não estão sozinhos e sim, é claro, que têm Deus convosco. Porque Ele é Emanuel, é Deus connosco no nascimento, na vida, na luta, no sofrimento, na dor e na morte, para que possamos estar com Ele na ressurreição. Mas eu também acrescento o seguinte: isto não pode ser tomado como uma promessa que se experimenta como indivíduo. Mas só quando se está disposto a participar no corpo de Cristo. Porque Cristo ser-lhe-á apresentado, eu acredito nisso, mas Ele provavelmente ser-lhe-á apresentado no cuidado e na preocupação dos seus irmãos e irmãs. E, portanto, é um tempo para reunir, vir para a mesa. Vou concluir com isto: como sabe, eu gosto de música. A famosa canção dos Beatles “Come together right now over me”(‘Venham juntos, agora mesmo em cima de mim’).Sabe, eu só imagino Jesus a dizer isto. Eu acho que Ele poderia estar dizendo isto aos portugueses no meio da sua dor “Venham juntos agora mesmo em cima de mim”.

Muito obrigado Brian Zahnd.

 

Joaquim Cerqueira

Director da Rádio Transmundial