JC - Dr. George O. Wood é praticamente desconhecido em Portugal. Pode compartilhar um pouco sobre si, sobre a sua vida e sobre o seu Ministério?

GW - Eu nasci, de pais missionários, no noroeste da China e Tibete. Na verdade, nasci nos Estados Unidos, a minha mãe já era missionária na China há 17 anos antes de eu nascer e o meu pai há 9 anos. O meu pai era 10 anos mais novo do que a minha mãe, mas eles conheceram-se antes de partirem para a América, namoraram no barco, casaram em Xangai e eu sou o mais novo de 3 filhos.

Quando os comunistas tomaram o poder na China, em 1949, a nossa família teve que sair e então crescemos por todo os EUA, em vários lugares. Formei-me na Universidade Evangel (faculdade) em Springfield, Missouri, graduei-me de seguida no Fuller Theological Seminary em Pasadena, Califórnia, como mestre em teologia. Fui pastor do campus da Universidade e posteriormente terminei o meu doutoramento em teologia pastoral no Fuller Theological Seminary.

Pastoreei durante 17 anos uma igreja na Califórnia, no sul da Califórnia. Comecei com uma igreja de sessenta pessoas, 17 anos depois tínhamos cerca de 2.000 pessoas. Obtive a minha licenciatura em Direito (advocacia) e sou membro do Supremo Tribunal do Estado da Califórnia na barra do Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Em 1993 fui eleito um dos diretores das Assembleias de Deus nos EUA; há 14 anos, Secretário-Geral, e nos últimos 6 anos, fui eleito superintendente geral das Assembleias de Deus dos EUA e presidente da Comunhão mundial das Assembleias de Deus.

JC - Como é que a experiência dos seus pais o influenciou e marcou a sua vida, como cristão e como homem?

GW - Os meus pais nunca aparecerem nos holofotes ou nas manchetes dos media, eles não eram pessoas proeminentes ou conhecidas, nunca falaram em convenções ou congressos; nunca tiveram a oportunidade para o fazer, mas eles, como provavelmente acontece com 99 por cento dos trabalhadores do Reino de Deus, fizeram apenas o seu trabalho, em silêncio, muitas vezes escondidos e em pequenos lugares. A minha mãe costumava dizer-me, quando eu estava a crescer, e quando nós éramos bem-sucedidos, que quando estivermos diante do Senhor, Ele não nos perguntará se tivemos sucesso, mas se fomos fiéis. Isso foi muito significativo para os meus pais, porque depois de décadas de ministério eles não tinham números substanciais para mostrar, em termos de resultados, mas eles plantaram 3 igrejas nos EUA e uma igreja na China. A minha mãe costumava dizer-me que o que interessa é aquilo que importa daqui a cem anos. O que importará daqui a 100 anos! Eu percebo que, daqui a cem anos, o que importará, não é o tipo de roupa que utilizávamos ou o tipo de casa em que vivíamos, se vivíamos numa mansão ou num quarto, se conduzíamos um automóvel ou se não tínhamos nenhum automóvel; o que importará daqui a cem anos é se amávamos o Senhor com todo o nosso coração, a nossa mente, a nossa alma e a nossa força, e ao próximo como a nós mesmos, se servimos ao Senhor e se fizemos o que Ele nos chamou para fazer. Realmente aprendi isso dos meus pais e da influência que eles tiveram em mim, como trabalhadores do Senhor.

JC - Como é o seu relacionamento com a China e especialmente com a igreja que os seus pais plantaram? Creio que a igreja tem hoje cerca de 15.000 membros, estou certo?

GW - Quando saímos em 1949, havia aproximadamente 200 crentes cristãos na nossa igreja e mais 2 outras igrejas na cidade, com 300 membros, havia provavelmente um total de 500 crentes na nossa cidade e, de seguida, a porta fechou-se. Os meus pais nunca mais ouviram uma palavra acerca da igreja, pois não era possível enviarem ou receberem qualquer correspondência. A minha mãe morreu 30 anos depois de sairmos, o meu pai morreu 5 depois, 35 anos depois de sairmos. E nunca souberam o que aconteceu à semente que eles plantaram. Eu voltei pela primeira vez em 1988, já lá estive por 6 vezes, no total. Abreviando uma história longa, é uma igreja que tem hoje mais de 15.000 crentes, em 3 congregações principais. Recordo-me da primeira vez que lá voltei, quando falei com o pastor que era do tempo do meu pai (ele tinha 80 anos), nunca mais o tinha visto. Ele tinha pregado no último domingo quando deixámos aquela cidade e desde então, já não o via há 39 anos. Ele passou 9 anos na prisão e esteve dezasseis anos em liberdade condicional. A propriedade da Igreja foi apreendida e eles não podiam reunir-se; ele ia ter com os crentes individualmente para dar-lhe forças e era tudo o que era possível fazer. Então, quando ele tinha 72 anos de idade, as autoridades locais chamaram-no, e disseram-lhe, “cometemos alguns erros durante a revolução cultural e o seu caso foi um deles, gostaríamos de pedir-lhe desculpas oficialmente e dar-lhe os seus papéis de exoneração”. Ele disse-lhes “levaram os 25 melhores anos da minha vida e agora acham que tudo se resolve com um pedido de desculpas?”. Eles ficaram surpreendidos com a sua ousadia e perguntaram-lhe o que queria que eles lhe fizessem e ele disse: 1) Eu quero pregar o Evangelho novamente; 2) Quero que a propriedade da Igreja seja devolvida e haja permissão para reunir novamente; 3) Quero permissão para viajar de uma província para outra, e também para a minha neta, pois já sou idoso e por isso preciso de ajuda; 4) Em todos estes anos, vocês privaram-me do meu sustento, então deveriam agora dar-me dinheiro ou uma pensão. Eles concordaram e deram-lhe tudo o que ele pediu. Quanto à igreja, só lhe deram o título da propriedade, não lhe deram a posse real, pois a propriedade estava na posse de outros e não o ajudaram a obter o usufruto da propriedade. Então ele tentou tirar as pessoas da propriedade mas foi espancado por eles. Ele não foi capaz de ter a propriedade, e assim mais três anos se passaram. Com a idade de 75 anos ele reabriu a Igreja. Perguntei-lhe, “pastor Mong quantas pessoas teve no primeiro domingo” e ele disse “30”, o meu coração caiu porque depois de tantos anos, a igreja passou de 500 para 30 pessoas. Perguntei-lhe se na sua maioria eram pessoas idosas, ele respondeu que sim. Perguntei-lhe se havia algumas pessoas, fruto do ministério dos meus pais, ao que ele respondeu: “muitos”. Mas eu pensei, esta igreja vai morrer! Esta é agora uma cidade enorme, com mais de 100.000 pessoas, uma igreja de 30 idosos e um pastor de 75 anos de idade. Com todas as restrições do governo, não poderiam ter grupo de jovens abaixo dos 18 anos de idade, é ilegal batizar menores de 18 anos. Mesmo aqueles com mais de 18 anos têm de dar o seu nome e endereço às autoridades locais para se registarem como cristãos. Dessa forma ficam sujeitos a discriminações, a prisão, a perseguição, a discriminação no emprego e todo esse tipo de coisas. E então perguntei-lhe, “e quantos membros tem agora?”, e ele pergunta-me se eu gostaria de ver o livro de registos dos batismos. Abri o livro, à espera ver apenas 2 ou 3 nomes nele, e em vez disso, a primeira página estava totalmente preenchida, com cerca de 18 a 20 nomes, virei mais páginas, todas elas estavam cheias de nomes. Até que por fim devolvi o livro ao pastor Mong e perguntei-lhe “Quantos crentes tem agora?”, ele respondeu “tenho 1500 membros batizados”. Olhei para ele totalmente chocado e perguntei-lhe como é que isso aconteceu. E ele olhou-me como se eu estivesse a fazer uma pergunta tipicamente americana (porque na América é tudo técnica instantânea), “como é que fez isso?”. Ele respondeu, “bem, Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre, e nós oramos muito”. De seguida ele descreveu o que o Senhor tinha feito naquela cidade.

Ele ainda viveu mais 16 anos, morreu com a idade de 96 anos, há 8 anos. E quando ele morreu, eles tinham 3 igrejas principais num total de 15000 crentes. Uma dessas igrejas começou uma escola bíblica. Enviaram quatro missionários para o Tibete, 4 missionários chineses no Tibete. Preparam jovens chineses, homens e mulheres, para o Ministério do Evangelho.

JC - Em agosto de 2007, tornou-se o líder da maior organização Pentecostal do mundo que tem mais de 65 milhões de membros no mundo inteiro. Pode explicar-nos brevemente qual é o seu papel? Eu sei que estabeleceu um conjunto de cinco valores fundamentais, em que baseia tudo aquilo que faz; pode dar-nos uma breve explicação de cada um deles?

GW - Bem, como Presidente da Comunhão mundial das Assembleias de Deus, a minha responsabilidade é em grande parte unir as pessoas; cada igreja nacional é autónoma, portanto não somos uma organização hierárquica. Principalmente, promovemos a comunhão, e a cada três anos temos um Congresso Mundial das Assembleias de Deus, tivemos um aqui em Lisboa há alguns anos atrás e no próximo ano será na América, porque é o nosso 110º aniversário como corpo de igrejas. E estamos a assistir a coisas maravilhosas a acontecerem por todo o mundo. Na verdade, todos os 16 segundos, alguém no mundo, alguém está vindo à fé através das igrejas das Assembleias de Deus ou dos seus ministérios. A cada 42 minutos em algum lugar no mundo é iniciada uma nova Igreja das Assembleias de Deus. Isto é fenomenal, estamos a orar e a confiar que no ano de 2020, se o Senhor não voltar antes, teremos 500.000 igrejas e mais de 100.000.000 crentes. Quando me tornei Superintendente-Geral, orei resolutamente para saber qual a direção que deveríamos buscar para estes anos nos EUA (porque o meu papel nos Estados Unidos é diferente do meu papel no mundo). Nos EUA, temos 5 valores fundamentais: primeiro, proclamar em casa e fora de casa, pela palavra e pela ação, a Jesus como Salvador, que batiza no Espírito Santo, que cura e como Rei que voltará em breve. Em segundo lugar, uma vigorosa plantação de novas igrejas. Em terceiro lugar, investir estrategicamente na próxima geração: um terço dos membros das Assembleias de Deus, tem menos de 25 anos de idade, é mais de 1 milhão de jovens, de um total de 3 milhões. Quarto, habilitar a comunhão com recursos. Em quinto lugar, orar fervorosamente pelo favor e pela bênção de Deus à medida que o servimos com um coração puro e um propósito nobre.

Então, tudo o que fazemos nas Assembleias de Deus dos EUA está debaixo da alçada destes valores. E claro, a nossa missão é o evangelismo, o discipulado, a adoração e a compaixão, estes são os objectivos globais mais alargados ou a missão das nossas igrejas.

JC - É interessante ver que um destes valores fundamentais é o de investir na próxima geração. Aqui em Portugal, em Espanha, na Europa, a maioria dos jovens estão desempregados. Em Portugal, cerca de 42% dos jovens portugueses não tem emprego. Mesmo na Grécia, 56% não tem emprego. Como pode a igreja, as Assembleias de Deus como um movimento, desafiar e ajudar estes jovens?

GW - Também temos um nível de desemprego elevado entre os jovens, nos Estados Unidos, eles vão para a faculdade, passam lá quatro anos e depois voltam a viver com seus pais porque não conseguem encontrar trabalho, então isto está a tornar-se um problema universal. A crise é uma oportunidade. O que acontece é que a elevada taxa de desemprego entre os jovens, dá, por um lado, às famílias uma oportunidade para ficarem juntos mais tempo e criar relacionamentos familiares mais profundos. Mas também para os jovens da igreja, que estão desempregados, dá-lhes a oportunidade para servir a Jesus como voluntários. Eu digo sempre aos jovens: “construam fundamentos fortes na vossa vida, sobre os quais o Senhor poderá edificar mais tarde e colocar estruturas em cima”. Digo aos jovens: “não fiquem frustrados pela falta de emprego, encontrem situações onde possam ser voluntários, procurem onde possam ajudar, ser um apoio aos vossos pais, ser um apoio na vossa igreja local e não façam o que muitos jovens do meio secular fazem, desperdiçando as suas vidas em coisas sem sentido, em escolhas morais erradas, nas drogas, no álcool, nas festas e tudo isso. Encontrem uma maneira de usar a vossa vida com significado”. Se os jovens orarem fervorosamente, se buscarem o Espírito Santo, se buscarem a vontade de Deus e a direção para as suas vidas, Deus irá ajudar-los a encontrar um papel/função com significado.

JC - Como vê o papel das Assembleias de Deus e da igreja em geral, hoje, nos Estados Unidos e na Europa (e em Portugal)? Tendo em conta as ameaças e os desafios da nossa sociedade pós-moderna. Qual é o futuro da igreja?

GW - Acho que algumas vezes somos excessivamente pessimistas, mas se olharmos para a Igreja do primeiro século, eles vivam numa cultura muito mais adversa e hostil do que aquela em que vivemos hoje. O que estamos a ver na Europa Ocidental e na América é muitas vezes indiferença e não perseguição. Há marginalização nos meios de comunicação, na indústria do entretenimento, no reino da política, todos procuram marginalizar os crentes e às vezes caracterizam-nos de forma injusta, mas não temos qualquer tipo de perseguição, que no primeiro século, no segundo século e no início do terceiro século, a igreja tinha. Então, o que eu vejo hoje, onde a Igreja de Jesus Cristo está a crescer, ela está a crescer onde as pessoas encaram a palavra de Deus como a autoridade das suas vidas, onde não há nenhum compromisso sobre a autoridade da palavra de Deus, onde está a centralidade em Jesus Cristo e a mensagem exclusiva que a salvação veio em nenhum outro nome, exceto no nome de Jesus, e onde há uma dependência e confiança no Espírito Santo. Existe hoje, por exemplo, um número estimado de 700 milhões de pentecostais e carismáticos em todo o mundo e esta é claramente a face crescente da igreja. Estamos a ver, especialmente nos países emergentes, o que será a próxima onda, o que irá acontecer nos países emergentes da América Latina e África, que irão enviar missionários, de forma crescente, para a Europa Ocidental, para a Europa de Leste e para a América. Já estamos a presenciar isso na América, temos missionários provenientes de muitas nações para evangelizar a cultura de natureza multiétnica da América. Então, acredito que estamos à beira de ver acontecer o que lemos nas escrituras, que nos últimos dias, Deus derramará o seu Espírito sobre toda a carne. E Deus quer levantar uma geração, levantar uma geração que o sirva em força e poder e levar o evangelho às pessoas que estão desesperadamente necessitadas do Evangelho de Jesus Cristo. (16:25)

JC - A perceção que a Europa tem dos cristãos nos EUA, é que eles estão ligados à agenda política da América: a direita religiosa. Parece que há uma fusão entre a fé cristã e o nacionalismo (interesses nacionais dos Estados Unidos), como se fossem a mesma coisa. Os líderes cristãos são atraídos pela proximidade com o poder político: Qual é a sua opinião? Acha que essa fusão é saudável e benéfica para a Igreja?

GW - A minha perspetiva do cenário americano é que cristãos evangélicos e cristãos pentecostais não têm muita influência política. Por exemplo, não se pode ser um cristão evangélico comprometido e ser nomeado para um tribunal federal ou para a administração do Tribunal. A razão para isso é que se você é um cristão evangélico, acredita que a vida é sagrada, portanto, é pró-vida, não é a favor do aborto, é pró-casamento e está contra a eutanásia. Os meandros políticos e a atual estrutura de poder da vida política da América, tanto no seu ramo executivo e como no Congresso, tornou impossível que uma pessoa como eu, que além de pastor é também advogado, possa ser nomeado, aprovado ou confirmado pelo Senado dos Estados Unidos, para uma posição do Supremo Tribunal. Então, a ideia de que os evangélicos, trilhem um caminho em torno da política da América é uma perceção que eu acho que em grande parte não é verdade, dado o fato de que há uma marginalização dos cristãos evangélicos na América de hoje. É verdade que os evangélicos e cristãos pentecostais alinham em grande medida com aqueles que na política acreditam que a vida é sagrada, e que o aborto não deve ser parte de um processo aprovado pelo governo, que acreditam que um casamento deve ser entre um homem e uma mulher, que acreditam que não deve haver eutanásia. Mas os cristãos evangélicos também acreditam em cuidar dos pobres, preocupam-se com os imigrantes, acreditam na justiça social, acreditam na compaixão. Se olharmos apenas para as obras de compaixão (ação social) que são feitas na América, a grande percentagem são as igrejas evangélicas que o fazem e não as igrejas liberais, (eles falam muito, mas fazem pouco). Portanto, acho que alguma da perceção, da união dos cristãos evangélicos e pentecostais na América com o poder político estabelecido, é um mito. Mas quando vemos políticos que respeitam os mesmos valores que nós guardamos e quando vemos um político que defende os valores que nós defendemos, apoiamos esse politico não importa qual seja a sua posição política.

JC - Eu sei que apoia a rede dos homens cristãos a que está ligado o Dr. Ed Cole. Qual é a importância do Ministério de homens hoje? Geralmente, nas igrejas, vemos ministérios para as crianças, para os jovens, para as mulheres; mas os homens são frequentemente negligenciados, mesmo se considerarmos que vivemos num mundo ainda predominantemente masculino.

GW - Ed Cole foi um amigo meu e, com efeito, houve um tempo em que estávamos lado a lado, pastoreando igrejas vizinhas uma da outra, portanto eu tenho uma grande admiração por Ed e também por Paul, no movimento dos homens. O que estamos a assistir na América é a dissolução da família tradicional, mais de 40% dos nascimentos nos Estados Unidos ocorrem com mães ‘solteiras’ e parte disso está a acontecer porque os homens abdicaram das suas responsabilidades, como maridos e como pais. Eles escolheram viver um estilo de vida que contraria o Evangelho; quando olhamos para o que Jesus ensinou e a quem ele ensinou, o seu ministério ao longo de três anos, a maioria dele foi a um pequeno grupo de homens, em que Ele investiu de si mesmo e ensinou, para formar ou moldar o seu caráter. Portanto, se olharmos, por exemplo, para o sermão da montanha, a sua audiência principal eram os discípulos, embora a multidão acabasse por estar lá a escutar; todo o seu esforço ali era acerca do tipo de pessoa você é, e que tipo de ética você deve ter, é sobre o Reino de Deus despontando/rompendo no mundo presente. Em muitas partes do mundo, a igreja é composta por mais mulheres do que homens, e muitas vezes porque são mais mulheres que homens, talvez a Igreja viva um tipo de padrão “preguiçoso”, de apenas focar nas mulheres (graças a Deus pelas mulheres!). Jesus disse que as mulheres eram muito fiéis a Ele, por isso eu não esqueço isso, mas é preciso fazer um esforço intencional para levantar homens de Deus, na cultura de hoje, e a igreja local precisa de ser um lugar onde isso realmente acontece. O Evangelho deve tornar-se relevante para os homens e os homens precisam do exemplo do seu pastor, dos seus líderes espirituais, de como ser um homem de Deus, de como ser um bom marido, de como ser um bom pai. Isto é uma coisa verdadeiramente crítica, e o movimento de homens (e o Ed Cole tinha um papel importante ao fazer isso), realmente procurou edificar homens nas suas vidas pessoais. (22:27)

JC - Eu li alguns textos onde defende o Ministério de mulheres na igreja, como líderes e pastores. Na sua opinião, qual deve ser o papel da mulher na igreja do século XXI? Existem restrições sobre o que as mulheres podem fazer na igreja?

GW - Nas Assembleias de Deus dos EUA não colocamos nenhuma restrição àquilo que as mulheres podem fazer na igreja: aquilo que Joel profetizou é que nos últimos dias Deus derramará o seu espírito sobre toda carne, homens e mulheres. Então, a nossa compreensão do espírito sendo derramado, tem como consequência a forma como consideramos as mulheres no Ministério e na liderança. O caso da minha mãe, por exemplo, a minha mãe foi consagrada em 1924, serviu como ministro do Evangelho durante mais de 50 anos; temos visto exemplos destacados de mulheres que serviram na liderança, seja como pastores seniores, missionários, evangelistas, trabalhadores do Evangelho, conselheiros, ou qualquer outra função; as mulheres desempenharam um papel vital na expansão do Reino de Deus. E as igrejas que têm usado as mulheres, na minha opinião estão a crescer muito mais rapidamente do que igrejas que são orientadas para uma liderança masculina. É uma pena que a Igreja se prive a si mesma de tanta liderança capaz, e deixar tantas mulheres não as utilizando no Ministério do Evangelho. Reconheço que existem culturas que são dominadas pelos homens mas na América nós tendemos a ser mais igualitários e nas Escrituras vemos papéis de destaque desempenhados pelas mulheres. Pensamos que o envolvimento das mulheres no Ministério é parte do que o apóstolo Paulo disse quando ele afirma que em Cristo não há masculino ou feminino. Podemos dar às mulheres um lugar estratégico na liderança e cada vez mais iremos ver o crescimento das mulheres que Deus está a chamar para o Ministério; se se disser que Deus não pode chamá-las para o ministério, então também não se deixará espaço para elas. Se se entende que Deus está a pôr a mão dele sobre as mulheres, bem como sobre os homens, para o Ministério do Evangelho, então vamos vê-los realmente florescer e produzir grande fruto.

JC - Desde 2008, o mundo enfrenta a maior crise financeira desde 1929. Em Portugal, encontramo-nos sob assistência financeira internacional, a nossa economia está a ser destruída, temos mais de 1 milhão de desempregados. Na sua opinião qual deve ser o papel da igreja em tempos como este? Como aplicar as palavras de Jesus de Mateus 6:24 "ninguém pode servir a dois senhores. Ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro '?

GW - Um pouco de história… Nos EUA, nas Assembleias de Deus, no início da grande depressão, em 1929, éramos 91.000 pessoas, dez anos mais tarde, no final da grande depressão, éramos uns 182.000, duplicámos exatamente, mais do que duplicou o número de igrejas, de aproximadamente 1.400 para 3.400. E, na verdade, aumentou o número de missionários que enviámos, inclusive os meus pais entre esse grupo de missionários. Transponha a situação para o dia de hoje, e em muitos aspetos é tremendo o crescimento da Igreja. Então, a idéia de que a igreja tem de contrair enquanto a economia está em contração é simplesmente refutada pela nossa própria experiência; vimos que o crescimento aconteceu. Eu acho que tempos difíceis podem conduzir as pessoas para o Senhor. E quando uma igreja vê isso e não tem uma mentalidade de pobreza (e não falo sobre o falso evangelho da saúde e da riqueza), eu falo de Jesus que disse 'é melhor dar do que receber', quando você vê esse tipo de coisa acontecendo então vemos um crescimento tremendo no Reino. E acho que internamente também a igreja quando há uma pobreza entre seus membros, resultado do desemprego, tem uma excelente oportunidade de ser Igreja e fazê-lo como o apóstolo Paulo disse “Ao que tinha muito, não lhe sobrou e ao que tinha pouco, nada lhe faltou”, acho que se deixou o sistema capitalista ocidental de acumulação, muitas vezes, destruir o senso de comunidade de que temos uma obrigação para com os nossos irmãos e irmãs. Então, para mim, é um excelente momento para a igreja ser a Igreja e demonstrar que na Comunidade de Jesus Cristo, não deixamos os nossos ficarem sem alimentos, não os deixamos ficar sem roupa, não os deixamos ficar sem abrigo, não os deixamos ir sem as necessidades e direitos básicos satisfeitos, nós cuidamos dos nossos. Então, isso para mim, neste contexto económico, dá um grande desafio interno e externo à igreja, o desafio interno é conhecer as necessidades deles próprios, o desafio externo é ver que esta é uma incrível oportunidade de expandir o Evangelho de Jesus Cristo, para testemunhar àqueles que estão sofrendo e na sua necessidade procuram respostas para as suas vidas pessoais.

JC - O que diria como último pensamento, para desafiar e encorajar as igrejas e os cristãos portugueses neste tempo de crise?

GW - Bem, a primeira coisa que devemos sempre fazer é orar, quando a igreja ora, o lugar onde se encontra é abalado (sabemos isso do livro de Atos). Podemos olhar em todos os indicadores externos e podemos tornar-nos facilmente desencorajados quando olhamos para a política; quando olhamos para economia, quando olhamos para a cultura, nós podemos ficar desanimados. Mas quando chegarmos de joelhos e quando buscamos o Senhor, e quando começamos a orar, no Espírito e começamos a interceder, o nosso Deus começa a fortalecer o nosso ser. O apóstolo Paulo não estava muito preocupado com o bem-estar exterior dos crentes, em termos do seu estatuto económico e social, ele estava preocupado sobre Cristo habitar ricamente neles e a chave para tudo o que enfrentamos agora, é que precisamos de uma força interna para enfrentar os desafios externos e ela vem através da oração. Então, sejam quais forem as igrejas do mundo que oram e quais os fiéis que oram, vemos o Espírito Santo trabalhar de uma forma maravilhosa. Então, só vou incentivar a Igreja portuguesa para que este seja um tempo de clamor fervoroso ao senhor e de buscar a sua face. O outro encorajamento é, não se retraiam... Mas vejam este tempo como um tempo de visão sobre o que Deus pode fazer, e eu, ultimamente, estou cada vez mais concentrado naquilo que o apóstolo Paulo diz em Efésios capítulo 3, ele diz que 'Deus é capaz de fazer imensuravelmente mais do que você pode pedir ou imaginar '. Agora o fato de perguntarmos e imaginarmos, diz-nos que nós temos uma força objetiva, que temos um propósito; Deus não trabalha com pessoas que andam à deriva, que não perguntam a Ele, nem oram a Ele. Ele então disse ‘eu sou capaz de fazer imensuravelmente mais’.

Agora se você está no mundo dos negócios, irá medir tudo, utilizará métricas para medir o seu sucesso e se nós oramos a Deus para responder a isso será maravilhoso. Mas será melhor se Ele nos der mais um metro, será melhor se Ele nos der mais três metros, será melhor se ele nos der mais 100 metros. Seja 1 metro, 3 metros, 100 metros ou qualquer outra unidade de medida. O apóstolo Paulo disse que Ele é capaz de dar-lhe além do que você pode medir, imensuravelmente mais e isso não significa que ficará rico de todo. Pode significar o que pode acontecer no seu testemunho à sua família, no que acontece com o seu testemunho ao seu vizinho, no que acontece na sua vida, talvez um revés pelo qual está a passar e pensar que nunca esteve pior, isso é terrível. Mas aquilo que comprometemos ao Senhor e começarmos a perguntar e a imaginar o que Ele pode fazer das nossas vidas, Ele pega nisso e torna-o imensuravelmente mais.

E volto a um pensamento do início desta entrevista que é o de que os meus pais nunca poderiam imaginar que algum dia uma igreja que eles plantaram na China, teria hoje 15000 crentes, o que para eles seria imensuravelmente mais. As assembleias de Deus nos Estados Unidos da América, formada em 1914, com 300 pessoas, nunca poderiam imaginar que hoje seriam 3.000.000 pessoas, 12.700 igrejas e 365.000 igrejas em todo o mundo. Percebe-se que existem mais, dez vezes mais, igrejas das assembleias de Deus igrejas no mundo do que restaurantes McDonald's. Restaurantes McDonald's são cerca de 30.000, e nós temos 365.000. Imensuravelmente mais, Deus é capaz de fazer imensuravelmente mais. Então, apenas estou encorajando os crentes a fazerem isso, a colocarem um significado na palavra crente e realmente terem fé que Deus é capaz de fazer, está disposto a fazer e quer fazer imensuravelmente mais do que todos nós podemos pedir ou imaginar.

 

Entrevista conduzida por Joaquim Carvalho,

Director da Rádio Transmundial