Como completaria a seguinte frase: “O melhor que levamos desta vida é…”?

Em conversas de família, de café ou na rua, escuto com frequência diversas versões desta mesma expressão, consoante o ponto de vista de quem a profere. Pelo que ouço, a versão mais popular defende que é comer e beber, seguida de momentos passados com família, amigos ou de diversão.

Eu até entendo onde se quer chegar com este género de afirmações. Uma boa refeição, estar com família ou amigos são, de facto, momentos gratificantes e essenciais na vida de qualquer pessoa. Mas será que levamos realmente alguma coisa desta vida?

Os antigos egípcios acreditavam piamente que sim. Tanto que os faraós eram sepultados com as suas posses, objetos decorativos e alimentos.  Só na sepultura de Tutankhamon foram encontrados mais de 5 mil objetos. Relatos não confirmados dizem-nos que também levavam consigo escravos para os servirem no outro mundo. Outros tempos, felizmente.

Contudo, se a ideia de nos separarmos drasticamente de pessoas e bens pode ser aterradora para quem não acredita na vida depois da morte, não será totalmente pacífica mesmo para quem tem a firme convicção na vida para além da existência terrena. É que nós, humanos, somos movidos pelo instinto de sobrevivência e naturalmente agarramo-nos à vida com unhas e dentes. Agarramo-nos a pessoas e coisas.

O facto é que, se o dinheiro sobrar, fica no banco. A herança é para os herdeiros. A posição social que granjeámos ou o império que construímos não nos conferem qualquer estatuto especial no lado de lá da vida. As jantaradas, reuniões de família ou palhaçadas com amigos ficam para quem cá fica depois de partirmos. Até eventuais amarguras, ressentimentos ou dívidas não viajam connosco. E se em vez de nos concentrarmos tanto naquilo que (supostamente) podemos retirar aqui da terra, nos focássemos mais naquilo que podemos deixar? Por que é mesmo a única coisa que podemos fazer. Nada podemos levar mas há algo que só tu e eu podemos deixar.

A Bíblia diz que melhor é dar do que receber. Não é que receber não seja bom, mas dar é incomparavelmente melhor. Que legado, que herança estamos a construir para as gerações seguintes? Casas, objetos, dinheiro ou impérios, tudo passa, tudo perece. Porém, há legados que não se esfumam com a nossa morte e permanecem para sempre. Sinceramente, sorri-me bastante a ideia de que aquilo que eu pensar, disser ou fizer em vida tem o potencial para influenciar e edificar pessoas muito depois de eu já cá não estar.

Porque é que há personalidades que, séculos ou mesmo milhares de anos depois, ainda hoje são recordadas? Porque deixaram um legado com impacto suficiente na História da humanidade para não ser votado ao esquecimento. Jesus deixou-nos um novo testamento que tem beneficiado geração após geração. Hitler também deixou uma herança. Um pelas melhores razões, outro pelas piores de sempre.

Como pais e educadores, cabe-nos decidir que património espiritual, emocional e moral estamos a transmitir aos nossos filhos. Ajuda-os a crescer de forma saudável, a sentirem-se amados, valorizados, a tornarem-se em mulheres e homens com auto-estima e auto-imagem corretas? Em adultos responsáveis e bem resolvidos que contribuem ativamente para o bem do próximo? Ou deixamos uma herança que os penalizará e marcará negativamente para toda a vida? Ou nem isso sequer? É que a ausência, o vazio do nada, também pode ser uma herança.

O que podemos compartilhar com as gerações que nos vão suceder? Um bom caráter, um exemplo de integridade e valores de vida. Momentos significativos em conjunto que vão criar memórias que perdurem para além da nossa existência física. Palavras encorajadoras que libertem o potencial e os dons contidos em que cada ser humano. Histórias de vida que nos revelem tal qual somos, com as nossas virtudes e imperfeições. O acesso à nossa pessoa, sem distâncias nem mistérios. A nossa presença, simplesmente. Dessa forma, poderemos deixar na próxima geração uma impressão digital, um rasto de pegadas. A nossa assinatura.

Usamos perfumes porque nos são agradáveis e com a intenção de nos fazer sentir bem connosco próprios. O perfume é revelador da nossa personalidade, consoante seja suave ou encorpado. Causa impacto e atrai as pessoas sem darmos por isso. Sempre que usamos um perfume de qualidade, a sua fragrância espalha-se e permanece onde estivermos, sinalizando a nossa passagem muito depois de irmos embora. Que aroma ficará de nós?

Temos a capacidade de decidir, aqui e agora, que legado vamos deixar para amanhã. De fazer do nosso teto um chão para os nossos filhos. Mas isso exige que estejamos conscientes do nosso propósito de vida, a razão pela qual estamos aqui na terra, e vivê-lo em cada dia. Intensamente. Intencionalmente.

 

Carlos Pinto Leite

Avô, blogger, fotógrafo, locutor de rádio

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