Ser escultor?

Entretanto, o meu pai mostrava-se contrariado. Não queria que eu fosse escultor. Ele era mecânico de automóveis e desejava que eu seguisse a mesma profissão. Mais tarde, quando os professores propuseram ao meu pai a oferta de uma Bolsa de Estudo para vir a Portugal estudar Belas-Artes, ele recusou, dizendo que fazer bonecos era arte de vagabundos. Queria que eu trabalhasse "como um homem", na oficina.

Começando pelo gesso

Na Escola Técnica, na disciplina de Trabalhos Manuais, comecei por fazer pintura e escultura apenas com gesso. De facto, não sabia que se podia esculpir em outros materiais. Passei a trazer paus de giz, da escola, e esculpia bonecos nesses paus: um homem sentado a pescar, outro de pé, bonecos abraçados...

Esculpindo em madeira

O Mestre de Trabalhos Manuais mandou-me fazer umas caravelas e uns barcos moliceiros, típicos de Aveiro, em madeira. Depois fiz uns bonecos em esferovite. Ele ficou surpreendido com a minha aptidão para a escultura, ainda adolescente. E foi observando, com muito interesse, as peças que eu fazia e que, depois, foram expostas na Escola. 

Recordo-me de fazer brinquedos para mim e para os meus irmãos, esculpidos em madeira. Eram carrinhos com rodas que se moviam, era um autocarro, com os assentos e o motorista sentado... As pessoas comentavam: "Como é que este miúdo tem tanto jeito?"

Estátuas e pinturas

Um dia a minha mãe viu, na montra de uma loja, uma estatueta da Rainha Isabel e disse que gostaria muito de ter uma... Observei os pormenores com atenção e, em casa, fiz uma, pintei-a e ofereci-lhe. Ela perguntou-me onde é que tinha ido buscar. Ficou admirada quando lhe disse que fora eu a fazer.

Fiz uma estátua do Desterrado, e a estátua de Sacavém, mediante imagens que vi num livro. Ainda em Angola, pintei muitos cartazes, para fins de campanha política. Também fiz esculturas em mogno, em pau-rosa e em pau de freixo.

Trabalhos em mármore

A primeira vez que trabalhei em pedra mármore foi em Portugal. Um senhor que fazia lareiras, pediu-me para fazer dois prumos esculpidos para segurar a fachada de uma. Esculpi duas cabeças de Faraó. Ele ficou encantado com o trabalho final. Fiz também esculturas em mármore, para cemitérios.

Tenho feito lagos para jardins, em pedra e com cimento, com figuras esculpidas e onde a água, puxada por um motor, cai em queda, cascata ou cataratas.

Fiz algumas exposições no Palheiro, Museu Etnográfico da Praia de Mira. Também já esculpi ao vivo,  num Evento Gastronómico e numa Feira, entre outros.

Dom de Deus

Nunca estudei escultura, nem me inspirei em alguém que o fizesse, porque não conhecia nenhum escultor. Não consigo ter uma explicação para isto. Sinto que é uma arte que nasceu comigo, como um dom de Deus!

A minha avó contava que o meu bisavô esculpia em ossos de boi. Tive uma tia com jeito para a pintura. Terei herdado deles esta arte? Não sei...

Olho para uma pedra e vejo logo ali a figura que irá sair. Vou esculpindo, e vai tomando forma. É uma actividade que me fascina, me absorve completamente. Em criança, até me esquecia de ir comer, enquanto esculpia.

Ensinar escultura

Nunca dei aulas por não ter uma certificação académica que me permitisse fazê-lo. Gostaria de ter a oportunidade de ensinar esta arte a outros: crianças, jovens, adultos e até à 3ª Idade (na verdade, gosto muito de esculpir rostos de idosos: a expressão, as rugas, o olhar...) Um workshop sobre escultura poderia ser um ponto de partida para muitos. Sinto-me muito grato a Deus por este dom!

 

António Faustino Oliveira

Escultor

Tel: 231 107 783