O João, (mais conhecido por Nené) é casado com Irina Sanhá e têm dois filhos: o Isaac de 10 e a Beatriz de 5 anos. Ambos nasceram na Guiné-Bissau e hoje ali servem a Deus de forma dedicada, junto de populações em necessidade.

O Néne viveu em Bissau a infância e a adolescência. Aos quinze anos, recebeu Jesus através do trabalho dos valorosos missionários portugueses Rodrigo e Zeza, que foram pioneiros no trabalho que agora estão a desenvolver. Veio para Portugal em 1998, fugido da guerra civil, carregado de relatos arrepiantes de um verdadeiro cenário de guerra vivido por ele e pela família, antes de conseguir fugir para o Senegal. Recebeu ajuda de um casal português, o Fernando e a Helena Lourenço, “pessoas fascinantes que me tratam como filho e na altura compraram o bilhete para que conseguisse viajar para cá, dando-me o suporte familiar que nunca tinha tido, e que colmatou a falta de um pai biológico, que faleceu antes do meu nascimento”.

Sobre a missão, Néne conta-nos que tinha uma chamada missionária e por isso fez um curso de Teologia, “na certeza que Deus iria usar-me na Sua obra”, assegura. Na sua igreja, em Alvalade – Lisboa, de quem sempre recebeu apoio para o ministério na Guiné-Bissau, considera os irmãos ali “mais do que parceiros, irmãos no verdadeiro sentido da palavra, dando apoio financeiro e espiritual à nossa família em missões.”

Foi durante um culto missionário que o Nené conheceu pela primeira vez aquela que viria ser a sua esposa. Irina conta como se deu essa aproximação: “Tinha eu dezoito anos, estava eu a cantar no grupo de louvor, num culto missionário, quando aparece um rapaz africano de 1.93 m pela igreja dentro, juntamente com o pregador convidado, o Dr. Abel Vallejos da Argentina, que tinha estado a trabalhar como missionário na Guiné-Bissau. Pelo que soube depois, o rapaz era para estar na cidade do Porto nesse momento, mas acompanhou o missionário naquele dia à minha igreja depois de muita insistência da sua parte. Foi a partir desse dia que os nossos caminhos se ligaram. A princípio, eu não estava muito interessada no rapaz, fazia-me “difícil” mas, volvidos seis anos após o nosso primeiro encontro e depois de muitas peripécias pelo meio, casámos.”

O casamento deu-se na Guiné, “mas casar ali não foi uma opção”, diz Nené. “Foi uma alternativa ao facto de, apesar de eu ter estado a viver e a estudar quatro anos em Portugal, tendo regressado a Bissau, a Embaixada de Portugal na Guiné não me conceder o visto de entrada. Naturalmente, a única e mais sensata solução, seria a Irina viajar até à Guiné, e foi o que ela fez. Casámos em julho de 2005 e, passados três meses, estávamos de regresso a Portugal. O desejo de fazer missões, continuava lá e não podíamos ignorá-lo.”

Tendo terminado a Escola Bíblica, Nené sentiu-se impelido por Deus a regressar a Bissau e a servir a Deus no seu país natal. Enquanto família, “continuávamos abertos a novos desafios, a novos países, mas por ora, sentimos que a nossa missão ainda não terminou na Guiné.”

Viver na Guiné é um desafio para qualquer pessoa, particularmente para quem está ali como missionário. Não obstante as dificuldades, “o país é lindíssimo, de paisagens estonteantes, em que o vermelho da terra contrasta com o verde quase fluorescente das árvores, palmeiras e vegetação e os (catchos) pássaros de várias cores. As oitenta e oito ilhas paradisíacas do arquipélago dos bijagós, podem ser comparadas às paisagens e praias da República Dominicana, Caraíbas ou Havai. Contudo, o país continua a braços com necessidades em muitas áreas: na saúde, educação, infraestruturas, assistência social, energia elétrica,  saneamento”, assegura-nos Nené. “Sentimo-nos muitas vezes pequenos face a tanta necessidade. Fazemos a nossa parte, o que é importante, mas existe um mar de problemas à espera de ser resolvido.”

Nené e Irina desenvolvem ali diversas actividades: “uma em Nhoma, a 25 kms de Bissau, outra no Norte do país e ainda outra aberta na aldeia de Catungo. Somos pastores principais da igreja no centro da cidade e fazemos o trabalho de supervisionar as outras igrejas que estão a ser pastoreadas por obreiros locais. Temos uma escola em Nhoma, da qual já se formou o atual pastor dessa localidade e que foi fundada também pelo casal de missionários Rodrigo e Zeza Sequeira que atualmente pastoreiam uma igreja no Algarve. Há dez anos atrás foi aberta por nós uma outra escola, a sete kms de Nhoma, numa aldeia chamada Kom.”

Sobre os povos não alcançados pelo Evangelho, na Guiné-Bissau, Nené confirma que existem, e que há dois anos atrás se sentiram impelidos a iniciar “trabalhos evangelísticos e sociais em algumas aldeias do interior do país. A igreja de N´Pantcha, através do pastor Malam, abriu uma frente missionária no Norte do país, em Ponta N´dafa e a igreja de Bissau, abriu em Catungo, no sul do país. Ambas, fazem parte de um complexo de aldeias muito carenciadas, sem condições sanitárias e postos médicos que consigam fazer face às necessidades das populações. O nosso desafio tem sido o evangelismo e apoio social nas áreas da saúde e educação.”

Na vertente educativa, Nené e Irina têm desenvolvido projectos nessa área, destacando o trabalho com as crianças: “Acreditamos no potencial das crianças, por isso apostamos na construção de escolas. As pessoas não podem continuar reféns da falta de escolaridade. Apostamos também na formação dos mais velhos, e por isso também trabalhamos com a Alfalit Guiné-Bissau, que tem um programa para a alfabetização de adultos. Desenvolvemos um trabalho com a Alfalit, que opera oficialmente no país há cinco anos e já alfabetizou mais de 1000 adultos. Este ano contamos ter 500 alunos divididos por 35 salas de aulas espalhadas pelo território guineense.” Têm como objectivo, a longo prazo, ter pelo menos uma sala de aula em cada (tabanka) aldeia, assim como também uma igreja, tendo em conta que se trata de um programa com teor evangelístico.”

Estão no campo missionário por paixão, sabendo que todo o esforço missionário que ali desenvolvem não é em vão: “Para nós é uma honra fazermos parte do que Deus está a fazer e vai fazer na Guiné. Muitos missionários plantaram com lágrimas e trabalho, mas sabemos que os resultados chegarão. É bastante gratificante vermos pessoas transformadas pelo poder do Evangelho, e essa é a nossa maior recompensa. A Guiné é um país cheio de desafios, a par das necessidades, também é um país mágico que nos prende à primeira vista, cheio de pessoas fantásticas e dignas de oportunidades.”

Nené não esconde que há receios associados à ida para lá, admitindo que as pessoas têm muito medo de viajar para Bissau embora considere que esse receio não seja de todo infundado, tendo em conta os riscos de doenças que se podem contrair como febre tifoide ou mesmo malária.” Em sua opinião, no entanto “não é nada que uma boa prevenção e cuidados no terreno não possam ajudar a despistar.” Ainda de acordo com Nené, existem outros factores que podem intimidar uma viagem ali, como sejam “as notícias que se ouvem quanto à instabilidade política e, em relação a isso, podemos dizer que a comunicação social muitas vezes é muito dura com a Guiné-Bissau. Os problemas existem, sim, isso é uma realidade, afinal estamos a falar de um dos países mais pobres do Mundo, mas posso dar como exemplo os dois golpes de Estado a que assisti. No primeiro, estávamos num acampamento de jovens da nossa igreja, fora de Bissau, e a minha mãe liga-me de Portugal muito aflita a perguntar se o país estava em guerra, e nós estávamos serenos e ao regressarmos para a cidade as coisas continuavam a funcionar de igual modo. Por outro lado, também temos o crescimento do islamismo, que para alguns que não conhecem a sociedade guineense poderá ser motivo de receio, mas felizmente nunca houve confrontos religiosos, por enquanto na Guiné as várias etnias e religiões ainda convivem pacificamente. Deverá ser, obviamente, um motivo e oportunidade para a comunidade cristã-evangélica arregaçar as mangas, unir-se e trabalhar para que O Evangelho seja conhecido entre essa comunidade.”

Em relação ao segundo golpe de estado, Nené encontrava-se nesse dia em Bissau, quando, pelas notícias, ouviu que tinha acabado de ocorrer um golpe de Estado: “As pessoas continuaram a viver e trabalhar como se não se tivesse passado nada. Normalmente nesse tipo de conflitos, quando acontece na Guiné, a população não sofre qualquer tipo de retaliação física, tirando claro, o fato do país ficar sistematicamente refém das consequências que advêm dos sucessivos golpes de Estado, podendo dar como exemplo a cíclica crise económico-financeira, falta de investimento estrangeiro, falta de hospitais etc. Contudo, o povo guineense sabe receber e não conheço nenhum relato de estrangeiros perseguidos ou mortos pelo simples fato de serem estrangeiros. Aliás, existe até uma certa admiração pelo “branco”. Fica já aqui a dica e estímulo para quem quiser voluntariar-se a ir, tomando como é óbvio, as devidas precauções.”

Nené e Irina falam também da necessidade de voluntários: “precisamos que mais pessoas se envolvam nesta causa: médicos, enfermeiros, professores, eletricistas, canalizadores, enfim, pessoas que mesmo não tendo nenhuma destas profissões, estejam dispostas a amar e servir e a dar algum tempo das suas vidas. Asseguramos a todas elas que não se irão arrepender e voltarão um pouco mais ricas.”

Sobre a colaboração que recebem da população local, dão como exemplo o trabalho que se vem efectuando na aldeia de Catungo, onde iniciaram o trabalho missionário há dois anos: “no geral, quando se fala em trabalho missionário nas igrejas na Guiné espera-se sempre que seja o missionário estrangeiro que empregue esforços para tal. A nossa experiência é que, quando sentimos da parte de Deus dar início ao evangelismo entre os povos não alcançados, partilhámos essa convicção com os membros da nossa igreja e automaticamente levantaram-se jovens dispostos não só a ir de uma forma pontual, mas a ficarem a morar entre esse povo, embora guineense também, mas com uma cultura e hábitos completamente diferentes do povo de Bissau. Sentimos que essa é uma maneira do avivamento começar. Os nossos jovens não estão à espera de ajuda do estrangeiro, embora ela seja bem-vinda e necessária. Eles estão a fazer o que está ao seu alcance para que o Evangelho seja propagado na Guiné. Aliás, a casa missionária da aldeia foi construída pelos nossos jovens e atualmente temos dois rapazes da igreja de Bissau a tempo inteiro. A partir desse passo de fé Deus tem aberto muitas portas e muitos recursos têm chegado para desenvolvimento da Sua obra naquele lugar.”

Estar no campo missionário é sinónimo de desafios: “Temos um poço cheio de desafios, tanto a nível das nossas igrejas locais em Bissau, como na necessidade de um espaço de culto mais amplo, novos instrumentos musicais (porque o povo africano expressa-se necessariamente através da música). Desejamos abrir uma escola de evangelismo transcultural a fim de enviar obreiros para evangelizar os povos não alcançados, formação de líderes na igreja local, abertura de igreja em aldeias muçulmanas. Um outro desafio que temos é abrir um posto de saúde em Catungo e finalizar as obras na casa missionária. Conseguirmos uma casa para receber os voluntários em Bissau, também tem sido um objetivo. Finalmente, a nível pessoal, precisamos que o tratamento odontológico que o nosso filho mais velho está a fazer surta efeito. A Irina precisa também de terminar o mestrado na área de Direito Penal para que possamos regressar a Bissau. Contudo tem sido muito bom e renovador congregar-me com as crianças durantes este tempo na minha igreja em Aveiro, com uma ampla visão missionária e de muito equilíbrio espiritual. Deus é Bom!

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