Quando a fé e a fama andam juntas

Recuemos alguns anos. Estamos em 2007 e Tim Tebow representa a equipa de futebol americano Florida Gators, equipa da Universidade da Florida. Recebe nesse ano o Troféu Heisman, um prémio que distingue anualmente o melhor jogador dos campeonatos universitários americanos. Tim tem então um futuro muito promissor à sua frente. E, de facto, nos anos que se seguem, cumpre com sucesso o seu percurso enquanto atleta universitário e em 2010 chega à National Football League (NFL).

As equipas da NFL recrutam anualmente jogadores vindos dos campeonatos universitários através de um procedimento próprio, o chamado draft. No draft de 2010, Tebow foi o 25º jogador a ser escolhido, tendo sido recrutado pela equipa Denver Brocos. Dois anos depois, Tebow foi transferido para os New York Jets, a equipa que representa actualmente.

Hoje, aos 25 anos de idade, Tebow vive um dos momentos mais conturbados da sua carreira. Não só a sua capacidade para o futebol americano profissional tem sido colocada em causa, como também as suas acções fora de campo são escrutinadas e valem-lhe muitas críticas. Vamos aos detalhes.

Tebow é um cristão convicto que faz questão de assumir publicamente a sua fé. Enquanto jogador universitário usava frequentemente referências a versículos bíblicos na face, durante os jogos (hábito ao qual não pôde dar continuidade visto que a NFL não permite este tipo de mensagens). Muitas vezes durante os jogos ajoelha-se no relvado em oração, assumindo uma posição que lhe é característica: coloca apenas um joelho no chão e apoia o braço no outro joelho. Essa posição tornou-se uma imagem de marca do atleta e é referida como Tebowing. Por não se coibir de mostrar abertamente a sua fé, Tim Tebow gera desde sempre alguma controvérsia. Mas tal controvérsia generalizou-se recentemente quando surgiu o anúncio, em Fevereiro, de que Tebow iria falar publicamente numa mega-igreja de Dallas liderada pelo reverendo Robert Jeffress. O reverendo Jeffress é conhecido e contestado por tomadas de posição polémicas contra os homossexuais e contra crentes de outras religiões como o islamismo, o mormonismo ou mesmo os cristãos católicos.

Sendo Tebow uma figura pública e tendo milhares de fãs - dos quais certamente uma parte pode sentir-se atingida pelas posições assumidas por Jeffress - o anúncio causou uma vaga de críticas e tornou-se motivo de debate e controvérsia por todo o país. De facto, numa rápida pesquisa pela web, encontramos diversos artigos de opinião a contestar a opção de Tebow.

Na semana seguinte, Tebow comunicou através do Twitter o cancelamento da sua participação no encontro da igreja do reverendo Jeffress. Não sabemos se foi por ceder à pressão da comunicação social e dos fãs ou se foi porque, em consciência, quis demarcar-se das posições polémicas do reverendo Jeffress, embora as suas palavras no Twitter apontem para a segunda hipótese: "Gostaria de partilhar uma mensagem de esperança e do amor incondicional de Cristo com os membros fiéis da histórica Primeira Igreja Baptista de Dallas em Abril, mas, devido a novas informações que chegaram ao meu conhecimento, decidi cancelar a minha participação no evento. (...)"

O cancelamento fez levantar um pouco a nuvem de críticas, mas nem por isso a situação desportiva de Tim Tebow melhorou. Nos tempos recentes foi notícia muito mais por motivos extra-futebol do que pelas suas acções dentro de campo. A sua utilização ao serviço dos New York Jets tem sido muito reduzida e a sua carreira está agora num impasse, uma vez que não há, para já, notícia de que outra equipa esteja interessada no atleta.

Viver publicamente a fé sob críticas e escrutínio é tarefa exigente. Sobretudo para aqueles que, como Tim Tebow, são figuras públicas e vivem debaixo dos holofotes.

Esta história causou polémica recentemente do outro lado do Atlântico, mas nós podemos, numa primeira análise, considerar que não tem relação direta com as nossas vidas. Contudo, a intolerância que marca a sociedade de Tim Tebow também está presente na nossa sociedade. Uma intolerância que pode provir de diversas direções, mesmo das mais inusitadas. Assim, ainda que em geral não tenhamos de lidar com os holofotes da mesma forma que Tim Tebow, apetece deixar no ar uma questão que diz respeito a todos nós: de que forma é que estamos a dar resposta a uma sociedade tão fortemente marcada pela intolerância?

David Raimundo

 

Fontes:

http://articles.latimes.com/2013/feb/18/sports/la-sp-sn-tim-tebow-dallas-church-20130218

http://www.huffingtonpost.com/2013/02/14/tim-tebow-church-anti-gay-first-baptist-dallas_n_2687167.html

http://sports.yahoo.com/blogs/nfl-shutdown-corner/tim-tebow-cancels-appearance-controversial-dallas-church-155359044--nfl.html