Anita Baranay conta a história de um rapazinho de cinco anos que queria ter a atenção do seu pai. Então um dia esperou por ele à porta e disse: “Pai, posso fazer uma pergunta?” “Sim, claro”, respondeu o pai. “Quanto ganhas numa hora de trabalho?”, questionou o pequeno. A princípio, o pai sentiu-se incomodado com a questão colocada pelo filho, e perante a insistência deste, lá aceitou responder: “Ganho 20 euros à hora”. Aproveitando a ocasião, o rapaz perguntou de novo ao pai, “Emprestas-me 10 euros, por favor?” Por esta altura o pai já estava zangado, argumentando com o filho que se a sua curiosidade em saber quanto ganhava por hora era para lhe pedir dinheiro para gastar em alguma coisa inútil, então o melhor era ele ir para a cama. Triste por não ter convencido o pai a dar-lhe o dinheiro, lá foi cabisbaixo para o quarto.

Este, por sua vez, ficou a refletir sobre a pergunta do filho, questionando-se sobre a sua ousadia. Algum tempo depois, e já mais calmo, pensou se não teria sido áspero demais com o rapaz, pois até nem lhe pedia dinheiro com frequência. Desejando ficar de bem consigo próprio, dirigiu-se ao quarto do filho, abriu a porta e perguntou: “Estás a dormir, filho?”, ao que este respondeu: “Não, estou acordado”. “Sabes”, disse o pai, “se calhar não tive a atitude mais correta contigo hoje. O dia foi muito cansativo. Aqui tens os 10 euros como querias.” O rapaz nem cabia em si de contente. “Obrigado, pai”, agradeceu com grande entusiasmo. De imediato colocou o dinheiro debaixo da almofada, juntamente com outras notas que ali tinha guardado. Ao reparar que o filho tinha mais dinheiro com ele, desta vez ficou mesmo zangado. Entretanto o rapaz pôs-se a contar o dinheiro e no final olhou para o pai, que lhe perguntou: “Porque quiseste dinheiro, se já tinhas algum?” Respondeu o filho: “Porque não tinha ainda o suficiente, agora já tenho”. E disse mais: “Paizinho, agora tenho 20 euros. Posso comprar uma hora do teu tempo?”

Um dos grandes desafios que se colocam aos pais hoje é o de separar tempo de qualidade para dedicar aos seus filhos, estar com eles, mas também estar disponível para ouvi-los. Alguém disse que “um ouvido atento e um coração amoroso sempre caminham juntos”. Warren Wiersbe, comentando o relacionamento entre pais e filhos, refere o desabafo de uma criança ao pai: “Tu tiras tempo para estar comigo mas não tens tempo para me ouvir!”. É forte, não é? Por muito ocupados que os pais estejam, é encorajador para uma criança perceber que há um tempo que lhe é dedicado, reservado a pensar nela, que lhe pertence, ainda que sejam escassas sobras do dia. Estudos demonstram que quanto mais tempo os pais dedicam aos filhos, melhor os compreendem e melhor reconhecem as suas capacidades. Sem essa proximidade, será difícil ter a percepção do seu potencial como indivíduos, valorizar os seus desejos e competências, de forma a providenciar caminhos e estímulos adequados ao seu desenvolvimento.

Alguém que deseje de facto encontrar essa tal medida de tempo que possa vir a fazer a diferença na vida do seu filho, poderá perguntar: “Como posso, então, rentabilizar/melhorar o meu tempo, estando assim mais próximo dele, nem que seja para brincar”? Em primeiro lugar, terá que haver uma firme disposição para o fazer. Regra geral encontramos disposição para coisas que são acessórias na nossa vida, ao invés do que é prioritário. Assuma o relacionamento com o seu filho como uma área de compromisso a que não pode faltar, que não pode ser substituída, que deve constar na sua agenda. Avalie a forma como está a gerir o seu tempo, fazendo um género de inventário sobre itens em que está envolvido no dia-a-dia. Por exemplo, se introduzir algumas mudanças nos meus tempos de lazer, nos hábitos laborais, quem poderá beneficiar com isso? Irá descobrir que há actividades em que está envolvido que não são assim tão importantes. A agenda de sucesso de um pai não é a que tem um programa absorvente fora do lar, mas a que dispõe de tempo de qualidade para nutrir a sua família.

Abel Tomé