Samuel Antunes, Psicólogo

Ser pai é um dos desafios mais gratificantes que um homem pode enfrentar, mas é seguramente o mais exigente e estimulante da vida desse homem. Preparar um(a) filho(a) para ser um(a) adulto(a) feliz, saudável e equilibrado(a), é mesmo uma tarefa desafiante. Sobretudo se pensarmos que vivemos em tempos de grande incerteza e de mudanças e que a única certeza que temos, é que a mudança será uma constante nas nossas vida e na vida dos nossos filhos nas próximas décadas. Teremos que preparar os nossos filhos para lidarem com um mundo exigente e imprevisível e dotá-los de “ferramentas” que lhes permitam enfrentar, adequadamente, os desafios que a vida lhes trará. Mas que ferramentas são essas? São basicamente competências que os ajudarão, em cada etapa da sua vida, a fazer face às múltiplas situações que enfrentam (académicas, sociais, relacionais, profissionais, etc...) de modo a gerir riscos e desafios de forma saudável e eficaz.

A complexidade do nosso papel de pai, reside no facto de que não basta suprir necessidades básicas (alimentação, cuidados físicos, educação) é necessário preparar os nossos filhos para, em cada momento, poderem responder da forma mais adequada possível. Em suma, capacitá-los para a vida. Vejamos algumas responsabilidades inerentes ao papel de pai:

 

1. Ser modelo e influência

A maneira como os pais vivem as suas vidas, cria padrões para a vida dos seus filhos e é expectável que os pais sejam uma referência positiva na vida dos seus filhos.

Isso requer coerência, autenticidade e verdade, pois o nosso comportamento fala mais alto do que as nossas palavras e por isso mesmo, a forma como agimos, interagimos (com o nosso cônjuge, com os nossos filhos, restantes familiares e com as pessoas em geral) e gerimos situações (sejam elas difíceis ou não) acaba por ser um modelo para os nossos filhos. Igualmente a nossa visão e perspectivas sobre a vida, os problemas, o futuro, o exemplo de integridade que somos e que reflecte os nossos valores, as nossas crenças e o nosso carácter, influenciam a formação da personalidade dos nossos filhos, o seu carácter e o modo como se posicionam face à vida e aos desafios que enfrentarão.

 

2. Desenvolver as soft skills dos nossos filhos

A expressão soft skills generalizou-se para traduzir um conjunto de características que integram o “saber ser e o saber estar”. Basicamente trata-se de um conjunto de competências que permitirão aos nossos filhos interagirem eficazmente com os outros e com o mundo ao seu redor. São exemplos dessas soft skills a inteligência emocional, a flexibilidade, a resiliência, o auto-controlo, a fiabilidade, a orientação para as relações sociais, a persuasão, a comunicação verbal, a capacidade de trabalhar em equipa, a liderança, a criatividade e inovação, a assertividade, a orientação para os resultados e a capacidade de resolver problemas,  entre outras.

Trata-se de um conjunto de competências que se desenvolvem ao longo do processo educativo e da formação da personalidade, mas que precisam de ser trabalhadas desde cedo pelos pais. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, pode ser a síntese que integra todo este conjunto de capacidades diferenciadoras. Trabalhar estas competências é sem dúvida preparar os nossos filhos para enfrentarem com êxito os “diferentes mundos” da sua vida (o escolar, o social e o profissional), mas sobretudo, é ajudá-los a desenvolver a esperança e a libertarem-se do medo do futuro.

 

3. Ensinar os nossos filhos a lidar com o erro

Embora a nossa cultura (e até o nosso sistema de ensino) se foque mais no erro do que no bom desempenho e esteja mais voltada para punir o erro do que premiar/valorizar o comportamento ou a resposta adequada, precisamos de ensinar aos nossos filhos que errar não é sinónimo de incompetência, de fracasso ou de falta de valor pessoal, é apenas uma oportunidade de corrigir, de melhorar, de aprender e de amadurecer. Que esconder um erro pode ser muito mais prejudicial do que assumi-lo, que a “vergonha” não está em errar, está em, sabendo que errámos, não introduzirmos a correcção e a mudança necessária para banir esse erro. Errar faz parte do processo de aprender, como cair faz parte de processo de aprender a andar sozinho. Se os nossos filhos aprenderem a lidar com os erros de forma construtiva, serão adultos mais felizes, com menos culpabilidade e vergonha e mais capacidade de auto-desenvolvimento e de crescimento pessoal e espiritual.

 

4. Prepará-los para resolver problemas e tomar decisões

O processo de tomada de decisão é um processo complexo e nem sempre óbvio para os nossos filhos. É verdade que eles aprendem a tomar decisões com base na experiência e na aprendizagem resultante da tentativa e do erro. Mas é possível ensinar-lhes a analisarem de forma crítica as situações com que se deparam e em relação às quais têm que tomar decisões, a terem critérios para fazer essa análise e a ponderar as possíveis consequências e resultados das suas decisões. Este processo, relativamente fácil de implementar, pode ser muito importante e de grande ajuda para os nossos filhos, preparando-os para decidirem com objectividade, rigor e independência, reduzindo riscos e prevenindo más decisões e consequências nefasta ou mesmo traumáticas.

 

5. Prepará-los para serem autónomos e independentes

O processo educativo é fundamentalmente o processo de prepararmos os

nossos filhos para serem adultos maduros, equilibrados e emocionalmente

e financeiramente independentes de nós. Isso não significa desligados ou

emocionalmente distantes, mas sim, capazes de gerirem eficazmente a sua

vida sem necessitarem da nossa ajuda ou supervisão. É isso que caracteriza a idade adulta e deve ser o referencial que transmitimos aos nossos filhos. Um modelo de capacidade de gestão da nossa vida e da nossa família, de maturidade na gestão das finanças (vivermos com os recursos que temos e não acima das nossas possibilidades) e das várias áreas que compõem a nossa existência. Um pai também tem o dever de ensinar a gerir expectativas a resistir ao consumismo e a viver de forma equilibrada nos vários domínios da vida (familiar, profissional, espiritual, social e pessoal).

 

6. Construir uma identidade sólida

A questão da identidade é uma questão central na vida de qualquer pessoa. É suposto que ao longo do processo de desenvolvimento essa identidade se construa e consolide no final da adolescência. Inclui dimensões como: saber quem sou (o que me caracteriza e me define como ser único), a que grupo pertenço (ser parte integrante de uma família, de uma comunidade e sentir-me aceite pelas mesmas), qual é o meu valor (consciência dos pontos fortes, menos fortes e competências para resolver problemas e encontrar soluções) são componentes essenciais para a construção da identidade, da segurança pessoal e da afirmação de si como pessoa singular.

O pai tem aqui um papel importante, ao ajudar o seu/sua filho(a) neste processo, fortalecendo o sentido de identidade  e de pertença, dando feedback construtivo, valorizando e reconhecendo, servindo ele próprio como modelo de identificação, no pressuposto de que terá estas questão bem “resolvidas” e definidas.

 

7. Construir sentido e propósito na vida

Para vivermos uma vida com significado necessitamos de entender qual é o propósito e o sentido da nossa vida. A vida aqui na terra tem uma razão de ser, não é um acaso, mas cada um de nós necessita  de encontrar o propósito que dá à sua vida um verdadeiro sentido e razão para existir. Como pais queremos que a vida dos nossos filhos seja marcante e plena de significado. O nosso papel como pais, é ajudar (através do diálogo, da reflexão conjunta e da oração) os nossos filhos a encontrarem o sentido da sua existência, um propósito que mobilize as suas acções e iniciativas, um rumo que lhes dê a sensação de que: valeu a pena.

Ao conhecerem Deus, encontrarão certamente a razão porque existem e para que existem.

Relembro aqui um versículo cheio de sabedoria e de ensinamentos, em Provérbios 22:6 “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele” e que encerra o grande segredo de preparar um filho para a vida, é ensinar-lhe desde a tenra idade, quais os princípios, valores e comportamentos que devem nortear a sua vida e a sua actuação em cada momento. Se os nossos fihos se apropriarem cedo desses princípios, estarão mais preparados para saber o que fazer em cada momento do seu percurso de vida.

É a nós pais (e não à televisão, à internet, ou outros meios) que compete capacitar os nossos filhos para os desafios vindouros. Isso implica relacionarmo-nos com eles, gastarmos tempo, rir e brincarmos juntos, ouvi-los, estarmos próximos e disponíveis, transmitindo afecto, aceitação, confiança, respeito, reconhecimento, valores e limites. Deste modo marcaremos de forma indelével o carácter e a vida dos nossos filhos. O maior legado que deixamos aos nossos filhos não é uma herança patrimonial, é um modelo de vida e todo um conjunto de princípios, valores, de vivências e experiências que os ajudarão a construir uma vida com sentido para si e para os seus descendentes.

Samuel Antunes, Psicólogo