O semblante do adulto é ainda jovem, veste casualmente e ronda a casa dos 40 anos. O rapazito, de rosto simpático, terá os seus 8 ou 9 anos e a cumplicidade entre ambos é evidente. O trajeto entre os apeadeiros subterrâneos do metro de Lisboa é o cenário que dá continuidade às conversas e brincadeiras que se iniciaram no madrugar de casa. A caminho da escola, pai e filho sintonizam olhares e calibram afetos.

Há dias em que disputam concentrados a vitória nas respostas de um conhecido jogo de perguntas e respostas da televisão no 'smartphone'. Outros há em que adivinhar as personagens dos cromos da bola na mão do cachopo é o desenferrujar matinal dos neurónios. Hoje, o braço do adulto insiste em apertar a criança contra o seu peito. Esta, por sua vez, sucumbe ao afeto e, consolada, aninha repetidamente o rosto no abraço do pai, de olhos fechados. Penso: "sim, é (também) disto que deve ser feito um relacionamento entre pai e filho, de conversas secretas, cumplicidade, o toque e o olhar". Encerrados na sua bolha invisível e alheios a tudo ao redor, protagonizam uma reconfortante cena para quem, como eu, os observa.

Reconfortante como um chocolate quente num dia de Inverno, como um abraço sentido e sem palavras, como adormecer uma criança no colo. Expressar afeto através de um beijo, um abraço envolvente ou de um gesto de ternura conforta quem recebe e quem dá... mas também a quem observa por perto.

Corro o risco de generalizar mas, quando testemunhamos o expressar de afetos, seja entre pessoas do nosso círculo mais íntimo ou entre puros desconhecidos, sentimos um certo conforto e bem-estar. Somos como que "puxados" para o meio da cena e difícil é que esse quadro não nos arranque um sorriso ou um olhar derretido.

Mesmo que perante desconhecidos, facilmente há algum ponto em que nos revemos nesses gestos e os transportamos para os nossos laços familiares e de amizade (ou para a ausência deles), em que esses gestos nos colocam um brilho nos olhos, um sorriso no coração.

Seja qual for o nosso tipo de personalidade, espontânea e efusiva ou reservada, não tem por que ser um obstáculo à expressão dos nossos sentimentos, basta sermos criativos. Se não nos sentimos confortáveis em verbalizá-los, podemos manifestá-los sob forma escrita, por gestos e atitudes. A imaginação é o nosso limite.

Na Bíblia, existe um relato (1) em que Deus afirma publicamente o seu amor por Jesus numa declaração que causa impacto, não apenas no próprio Jesus, mas também nos discípulos que o acompanham, mesmo que não a compreendendo. E, logo de seguida, um Messias que acalma os discípulos por meio do toque. Tal como o seu toque abençoava as crianças (2). Quando os apóstolos Paulo e Silas foram encarcerados numa masmorra, por volta da meia-noite "cantavam hinos" a Deus, o que foi certamente uma lufada de ar fresco para os demais prisioneiros que, admirados, os escutavam (3).

O poder de simples afetos é extraordinário. Um sorriso descarado ou um inesperado piscar de olho funcionam como quebra-gelo. Têm a capacidade de desarmar o espírito mal-humorado. Onde quer que aconteçam, são bálsamo para almas carregadas e deprimidas, inspiram bons sentimentos, desanuviam mentes conturbadas e mudam atmosferas pesadas.

O combóio detém-se. Saímos na mesma estação, mas separamo-nos em direções opostas. À minha volta, o ar é agora mais leve.

1) Mateus 17:5-8

2) Mateus 19:13-15

3) Atos 16:23-25

 

Carlos Pinto Leite

Gestor de imóvel, blogger, locutor de rádio

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

http://a-ilha-do-tesouro.blogspot.pt