“O ladrão vem para roubar, matar, e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”(João 10:10)

CONTEMPORANEIDADE

O cristianismo conta com quase dois mil anos de existência. Despontou num contexto cultural, social, político e económico totalmente diverso do nosso. As modificações desde então surgidas, principalmente aquelas que têm que ver com o nosso século quase a expirar, são verdadeiramente avassaladoras.

Por causa disso muitas pessoas desacreditam da actualidade do cristianismo face às novas realidades.

Esquecem-se ou ignoram que o evangelho não se dirige ao que no homem e na sociedade é efémero e passageiro, ao que é acessório, transitório e acidental; mas ao que é essencial e, portanto, que permanece.

O homem de hoje como o homem de há dois mil anos atrás – o homem de sempre – debate-se com o seu sentido e propósito, com a sua identidade, com a sua origem e com o seu futuro. O homem interroga-se acerca da sua presença no universo e sobre a possibilidade de relacionar-se com o que o transcende.

Não importa onde a tecnologia e a ciência nos possam levar, sempre dentro do homem existirá esse anseio.

Neste aspecto o cristianismo continua a ser tão contemporâneo quanto o foi há dois mil anos atrás e ao longo de cada uma das fases da história da humanidade.

O homem não está sozinho no universo. Muitos outros seres o povoam tanto bons como maus, mas para além deles existe o Criador. Nunca estará fora do tempo saber e conhecer acerca desse Criador e Sustentador de todas as coisas. A Bíblia reivindica que é a Comunicação Escrita de Deus com a Humanidade e o Evangelho apresenta Jesus Cristo como a Expressão Viva (encarnada) do próprio Deus feito homem. Emanuel – Deus connosco, nunca será um nome desactualizado e irrelevante. Precisamos de ouvir o que Deus nos tem a dizer porque o Criador em Jesus Cristo se mostra também como o Restaurador e Libertador.

O nosso mundo contemporâneo e a história deste último século é mais do que eloquente a esse respeito, clama por paz, entendimento, solidariedade, dignidade, justiça, amor, relacionamento... os conceitos podem ser diferentes e são-no muitas vezes na sua essência, mas tudo isso encontramos através das páginas da Bíblia.

Existem efectivamente aspectos em que poderemos dizer que o cristianismo é hoje mais do que nunca contemporâneo. As pressões e tensões da sociedade moderna, as preocupações e ansiedades, os conflitos que surgem um pouco por todo  o lado; as epidemias e as catástrofes que irrompem apesar do desenvolvimento técnico e científico e muitas vezes em função desse mesmo progresso; tornam cada vez mais necessária uma confiança e esperança que esteja além do próprio homem.

O humanismo e o materialismo têm-se mostrado totalmente incapazes para dar ao homem a segurança que ele precisa.

O evangelho não pode ser actualizado. Não é disso que estamos a falar. Reagimos vigorosamente a todas as intenções de retocá-lo, de maquilhá-lo, de torná-lo mais agradável ao homem moderno. Neste aspecto o evangelho será sempre, hoje como ontem, incómodo, desagradável. Ele não pretende ser popular. Sua atenção não é ganhar eleições, ter uma alta cotação na bolsa, estar em primeiro lugar no índice de audiências. Isso fica para os políticos, a televisão, e certos ‘artistas’.

Algumas telenovelas (segundo alguns dizem) vão sendo escritas ao sabor do gosto dos espectadores... eles mandam e o escritor redige.

Deus não fez assim. O que lhe importa não são adeptos, mas filhos.

RELEVÂNCIA

O papel dos cristãos e da igreja é mostrarem através da sua vivência e da reflexão e divulgação do evangelho como ele é pertinente e vai directo às questões e às necessidades do homem e da mulher, da família, da educação, dos filhos e da sociedade. Isto tem que ser feito muito mais através da vivência do que dos discursos.

PRIMADO DO ESPIRITUAL

Quando o materialismo sobe de tom e sufoca a educação e os meios de comunicação; quando o humanismo impõe limites estreitos ao pensamento e ao sonho; quando a secularização aumenta e aliena o homem da transcendência remetendo o espiritual para um gueto cultural querendo confiná-lo às quatro paredes do templo e às fórmulas de uma qualquer liturgia; quando, por outro lado, o misticismo cai no abismo do subjectivo e do individualismo; é necessário mostrar no dia a dia, como é fundamental compreender o homem e a vida a partir do que é espiritual. Que o espiritual não é um acessório fora de moda, que não é uma excrescência anquilosada, nem um fardo que a religião inventou, uma muleta para aguentar os mais fracos que não suportam a fúria da competição desenfreada.

É necessário mostrar que o espiritual não é um conceito ambíguo, pouco preciso, difícil de localizar. Quando os relacionamentos agonizam, o cristão tem de ser uma demonstração viva de que o espiritual é essencialmente o relacionamento dos relacionamentos entre Deus e a sua criatura.

O homem segundo o humanismo e o materialismo é demasiado pequeno. Só de barro o homem é muito pouco. O homem é um ser espiritual. Na matéria existem traços e características que muito o elevam acima dos animais, mas o homem só é percebido quando a sua identidade espiritual é captada.

Esta concentração do homem em si mesmo e para si mesmo eis a essência do pecado: o egoísmo!

A Bíblia não nega, nem descura ou menospreza, a parte material e física do homem. Ela, no entanto, não subordina o homem a essa dimensão. A Bíblia salienta a totalidade do homem, mas mostra a relação com Deus como essencial para todas as restantes vertentes da sua vida seja no plano social, familiar, profissional, do descanso e lazer, etc.

Sem Deus o homem está espiritualmente morto. Mas não basta crer em Deus para usufruir de vida espiritual. É preciso crer em Jesus Cristo sendo que crer pressupõe aceitar o que Ele fez a nosso favor para nos reconciliar com Deus e viver como Ele ensina.

REVELAÇÃO

Esta espiritualidade não é fruto de um exercício humano em busca de outras paragens distantes, escondidas, ocultas, esotéricas; mas uma vivência que pode ser compreendida e experimentada, através da revelação do próprio Deus. Deus falou e fala. Falou no passado por homens vulgares e comuns e nestes dias através da Sua encarnação em Jesus Cristo.

Quando hoje assistimos a uma vaga de fundo que pretende colocar no mesmo nível todas as religiões e credos; quando se afirma que o que importa é crer e não o que se crê; quando alguns alardeiam a opinião que o que importa é acreditar no divino; quando o ecumenismo pretende reunir debaixo do mesmo chapéu o deus dos budistas, dos hindus, dos muçulmanos, dos espiritas, dos bahá’is em nome da tolerância; quando algumas igrejas falam mais de fé do que de Jesus Cristo, alinhando com a filosofia da ‘fé na fé’; Jesus Cristo reivindica que só Ele nos leva ao Pai. Só o Filho de Deus nos pode levar a Deus. Há um só Mediador.

Jesus continua a ser tão incómodo e actual quanto o foi nos seus dias.

A DENÚNCIA

Jesus Cristo denunciou a presença e acção de um inimigo invisível que está por detrás de toda a morte e destruição. “O ladrão vem somente para roubar, matar, e destruir...”

A história, a antropologia, a filosofia, a psicologia e a sociologia, dissecam o homem com os instrumentos de que dispõem e o homem sobre o qual se debruçam é o homem amputado e na sua essência afectado. Todas as suas conclusões estão afectadas por essa limitação. O homem vendo-se a ele mesmo ao espelho, apreciando-se a si mesmo, diagnosticando-se, condenando-se ou justificando-se, ... A imparcialidade é notória. O homem vê o homem com os olhos do homem, com a mente do homem.

As conclusões não nos merecem muita confiança.

Algumas vezes conseguem seleccionar uma parte da realidade. Mas a verdade fica longe de uma descrição parcelar. Torna-se necessário uma visão global, isenta e imparcial. É necessário um diagnóstico que seja feito por alguém que esteja acima do homem e que, com isenção, o possa fazer. Ninguém melhor do que o próprio Criador. Ninguém como Jesus Cristo que sendo Deus se fez homem e é o Filho de Deus – Filho do homem. Ninguém como Ele sabe o que é o homem.

A REIVINDICAÇÃO

Perante o problema que afecta a humanidade de pouco serviria detectar a doença do homem, o que nele não está bem, principalmente quando o problema reside nas raízes e na essência.

É aí que Jesus Cristo uma vez mais supera tudo e todos e demonstra a boa vontade de Deus para com a humanidade. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”

PERSPECTIVA ETERNA

Quando o conhecimento do homem penetra até ao átomo, quando perscruta galáxias longínquas; quando a tecnologia permitiu ao homem chegar à lua e tornou a mundo uma aldeia global; quando a ciência médica possibilitou o transplante de órgãos humanos; a visão e perspectiva do homem sobre si mesmo reduziu-se e rebaixou-se como nunca antes.

O homem é apresentado como parente do macaco e produto do acidente e do acaso; destinado para a morte e o nada.

No mínimo um tremendo paradoxo.

Os resultados estão aí à vista de todos que têm discernimento para ver e entender.

LITERATURA

Neste contexto e com esta intenção têm surgido vários autores evangélicos que têm contribuído de uma forma decisiva para mostrar como, em boa verdade, o cristianismo e o evangelho são verdadeiramente contemporâneos e relevantes.

Chamo aqui a atenção para um desses autores ainda vivo, que muito aprecio e do qual temos à nossa disposição em português vários títulos. Todas as suas obras se pautam pela actualidade e fidelidade ao texto e conteúdo da Bíblia. A sua linguagem simples e o seu raciocínio claro ajudam o leitor a perceber a pertinência da mensagem de Jesus Cristo nos dias que vivemos.

Oferecemos nas várias caixas que acompanham este texto alguns destaques dos livros de John Stott. Através deles é fácil de perceber o valor dos seus contributos para uma apresentação contemporânea do evangelho. 

Samuel R. Pinheiro

Certos cristãos, preocupados acima de tudo com serem inequivocamente fiéis à revelação de Deus, ignoram os desafios do mundo moderno e vivem no passado. Outros, ansiosamente por responder ao mundo e vivem no passado. Outros, ansiosos por responder ao mundo que os cerca, enfeitam e torcem a revelação de Deus, em busca de relevância. Tenho tentado evitar ambas as armadilhas, pois o cristão não é livre para submeter-se, nem à antiguidade nem à modernidade. Ao invés disso, tenho buscado com toda a integridade submeter-me à revelação de ontem dentro da realidade de hoje. Não é nada fácil combinar lealdade ao passado com sensibilidade ao presente. É este, no entanto, o nosso chamado cristão: viver no mundo sob a Palavra.

(STOTT, John; O Cristão Em Uma Sociedade Não Cristã; Vinde; pág. 14)

Uma ideia bem estranha a muitas pessoas é que é mister haver uma decisão para que nos tornemos Cristãos. Alguns imaginam que já são Cristãos, pois que nasceram em um país Cristão. “Afinal de contas”, dizem eles, “não somos nem judeus, nem maometanos, nem tão pouco budistas; portanto, presumivelmente somos Cristãos!” Outros supõem que, tendo recebido uma educação Cristã, tendo sido ensinados, aceitaram o credo Cristão e padrões Cristãos de comportamento, nada mais então é requerido deles. No entanto qualquer que seja o parentesco e antecedência, todo o adulto responsável é obrigado a se resolver a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros. Nem tão pouco podemos nos esquivar do Cristianismo. De igual modo, não é possível que uma ou outra pessoa estabeleça o assunto por nós. É mister que decidamos por nós mesmos.

(STOTT, John; Cristianismo Básico; Vida Nova; pág. 144)

(...) Deus é quem cria, julga, redime e aperfeiçoa.

A iniciativa é dele, do começo ao fim. Por isso mesmo é que o culto popular ao insignificante ofende tão profundamente os cristãos. Existe, de facto, um conglomerado de atitudes populares fundamentalmente incompatíveis com a fé cristã, como por exemplo o conceito de um cego desenvolvimento evolutivo, a asserção da autonomia humana no que se refere a arte, ciência e educação e as declarações de que a História não tem propósito e a vida é absurda. A mente cristã entra em choque directo com essas noções seculares. Ela insiste que o ser humano só pode ser definido a partir de Deus, e que sem ele deixamos de ser o que somos, pois somos criaturas que dependem do seu Criador, pecadores que devem prestar-lhe contas e estão sob seu julgamento, seres perdidos sem a sua redenção.

(STOTT, John; Mentalidade Cristã; Vinde; pág. 59)

Deus terminou a obra da reconciliação na cruz; contudo ainda é necessário que os pecadores se arrependam e creiam e assim sejam “reconciliados com Deus”. Repito, os pecadores necessitam ser “reconciliados com Deus”; não obstante não devemos nos esquecer de que do lado de Deus a obra da reconciliação já foi feita.

(STOTT, Jonh; A Cruz de Cristo; Vida; pág. 180)

É um facto que a verdade revelada impõe uma limitação sobre o que os cristãos podem crer, e a bondade revelada, sobre como podemos nos comportar. E, num certo sentido, isto é “difícil”. Mas, em outro sentido, como Crisóstomo destacou há séculos atrás, o caminho difícil e estreito de Cristo também deve ser acolhido como “jugo suave” e “fardo leve”.

(STOTT, John; Contracultura Cristã; ABU; pág. 204)

O facto de que a mente do homem é decaída não nos pode servir de desculpa para batermos em retirada, passando do pensamento à emoção, já que o lado emocional da natureza humana está igualmente decaído. De facto, o pecado traz mais efeitos perigosos à nossa faculdade de sentir do que à nossa faculdade de pensar, porque nossas opiniões são mais facilmente controladas e reguladas pela verdade revelada do que as nossas experiências.

Assim, pois, apesar do estado decaído da mente humana, ainda ao homem lhe é ordenado pensar e usar sua mente, na condição de criatura humana que é. Deus convida o Israel rebelde: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor.”

(STOTT, John; Crer é Também Pensar; ABU; págs. 15,16)

Quando resistimos a mudanças – sejam elas na igreja ou na sociedade – devemos perguntar-nos se são, na realidade, as Escrituras que estamos defendendo (como é nosso costume insistir ardorosamente) ou, se ao contrário, é alguma tradição apreciada pelos anciãos eclesiásticos ou de nossa herança cultural. Is to não quer dizer que todas as tradições, simplesmente por serem tradicionais, devam a qualquer custo ser lançadas fora. Iconoclasmo sem crítica é tão estúpido quanto conservadorismo sem crítica, e é algumas vezes mais perigoso. O que eu estou enfatizando é que nenhuma tradição pode ser investida com uma espécie de imunidade diplomática à examinação. Nenhum privilégio especial pode ser-lhe reivindicado.

(STOTT, John; Cristianismo Equilibrado; CPAD; pág. 41)

A principal maneira pela qual Deus nos fala hoje é através da Escritura, como o tem reconhecido a Igreja geração após geração. As palavras que Deus falou através dos autores bíblicos e que ele providenciou para que fossem escritas e preservadas não são uma letra morta. Um dos principais ministérios do Espírito Santo é tornar a Palavra escrita de Deus “viva e eficaz” e “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”. Portanto, nunca devemos separar a Palavra do Espírito ou o Espírito da Palavra, pela simples razão de ser a Palavra de Deus “a espada do Espírito”, a principal arma usada por ele para realizar seu propósito na vida de seu povo. É essa confiança que nos capacita a pensar nas Escrituras tanto como texto escrito quanto como mensagem viva.

(STOTT, John; Ouça o Espírito Ouça o Mundo; pág. 117)

John R. W. Stott

Atingiu 77 anos de idade em 1998, mantendo a sua integridade intacta, um vigor que parece não ter diminuído, uma mente que continua brilhante e um ministério que chega a todos os cantos do mundo. Nem todos conseguem igualar este feito, muito poucos são aqueles que o alcançam com esta honra, e menos ainda, os que vêem as suas realizações com a humildade de um John Stott. Tem sido considerado “o mais influente clérigo da Igreja de Inglaterra, durante o século XX” e um dos mais proeminentes líderes evangélicos dos nossos tempos, e nessa qualidade, ele vê o mundo com o cuidado de um pastor. Acima de tudo, tem sido um mordomo da verdade de Deus e um arauto da mensagem bíblica. A sua liderança floresceu das suas perspectivas pastorais e bíblicas. A capacidade de produção literária de John Stott destaca-se tanto pela quantidade como pela qualidade: é autor de 42 livros, editor de 14 e já escreveu perto de 500 capítulos, ensaios, artigos e folhetos. Stott tem sido um visionário, vendo o que os outros não conseguem discernir. Um líder, que tem sabido como chegar às metas propostas. Mas são as suas qualidades de integridade, amor e sabedoria que fundam a sua liderança, tornando-a suave para aqueles que estão ao seu redor.

(A Outra Face; Abril/Junho 97)